Heitor Miranda dos Santos foi prefeito de Porto Murtinho, procurador de Justiça e defensor da ligação do Centro-Oeste aos portos do Pacífico; estrutura de 1.294 metros está na reta final e terá monitoramento climático e estrutural
Da Redação

Uma das obras mais importantes da Rota Bioceânica passa a carregar o nome de um dos defensores históricos do corredor internacional. A Lei nº 15.507 denomina Ponte Heitor Miranda dos Santos o trecho brasileiro da ponte sobre o Rio Paraguai, entre Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, no Paraguai.
A medida foi sancionada pelo vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, no exercício da Presidência, e publicada no Diário Oficial da União. A homenagem ocorre justamente quando a construção entra na reta final e as duas frentes da ponte, erguidas simultaneamente a partir dos territórios brasileiro e paraguaio, já estão unidas sobre o Rio Paraguai.
O encontro ocorreu no dia 15 de julho, no procedimento conhecido na engenharia como “beijo das aduelas”. Até poucos dias antes, 5,60 metros separavam as duas extremidades. Com a concretagem da última laje, a ponte passou a formar uma única estrutura, encerrando uma das etapas mais complexas da construção.
O simbolismo vai além da engenharia. Natural de Porto Murtinho, Heitor Miranda defendia desde a década de 1980 a implantação de um corredor capaz de ligar o Centro-Oeste aos portos do Oceano Pacífico.
A ponte que agora leva seu nome é justamente uma das estruturas centrais desse projeto, que atravessa Brasil, Paraguai, Argentina e Chile e cria uma alternativa logística para o transporte de cargas entre o Centro-Oeste brasileiro e os mercados da costa do Pacífico e da Ásia.
De promotor a prefeito de Porto Murtinho
Heitor Miranda dos Santos nasceu em Porto Murtinho em 28 de abril de 1953, filho de Orcírio dos Santos e Assunção Miranda dos Santos. Era casado com Myrian Conceição Silvestre dos Santos e residia em Campo Grande.
Sua trajetória no serviço público começou no Ministério Público de Mato Grosso do Sul. Em dezembro de 1979, foi nomeado promotor de Justiça de primeira entrância na comarca de Coxim, tomando posse no dia 20 daquele mês.
Em 1982, foi promovido para a comarca de Amambai e, posteriormente, removido para Corumbá. Em 1984, passou a atuar em Aquidauana.
Dois anos depois, assumiu o cargo de secretário de Estado do Trabalho. Em 1987, foi nomeado secretário-adjunto de Justiça de Mato Grosso do Sul e, no mesmo ano, promovido para atuar como promotor de Justiça em Campo Grande.
Em novembro de 1991, chegou ao cargo de procurador de Justiça. Já em 2008, passou a exercer também a função de coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça das Fundações.
A aposentadoria no Ministério Público foi concedida em abril de 2013. Naquele mesmo ano, Heitor Miranda iniciou mandato como prefeito de Porto Murtinho, cargo que exerceu até 2016.
Durante sua trajetória política, manteve a defesa da implantação do Corredor Bioceânico e participou das articulações para transformar Porto Murtinho em ponto de ligação do Brasil com Paraguai, Argentina e Chile.
Heitor Miranda morreu em 2022, aos 69 anos.
Ponte de quase 1,3 quilômetro entra na reta final
A ponte internacional possui 1.294 metros de extensão, com trecho estaiado de 632 metros e vão central de 350 metros. O projeto foi desenvolvido para preservar a navegabilidade do Rio Paraguai e permitir a passagem de embarcações de grande porte.
Com a união das duas frentes de construção, a obra avançou para sua fase final. Os trabalhos restantes incluem pavimentação, iluminação, sinalização, instalação de guarda-corpos, dispositivos de segurança, sistemas anticolisão e antissuicídio e acabamentos.
Segundo o Consórcio PyBra, responsável pela construção, cerca de 140 trabalhadores devem permanecer no canteiro durante essa etapa. A previsão é de conclusão da ponte em outubro deste ano.
A estrutura será o principal elo entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta dentro da Rota Bioceânica, estabelecendo uma conexão rodoviária que segue pelo Chaco paraguaio, atravessa a Argentina e chega aos portos do norte do Chile.
Ponte terá estações meteorológicas e sensores
A estrutura também contará com um sistema permanente de acompanhamento das condições ambientais e de seu comportamento ao longo do tempo. Duas estações meteorológicas serão instaladas no alto das torres da ponte, uma iniciativa que ganha relevância diante das previsões de efeitos de um fenômeno El Niño de forte intensidade.
Os equipamentos vão registrar em tempo real temperatura ambiente, chuva acumulada, velocidade e direção dos ventos, formando também uma base histórica das condições meteorológicas na região.
Segundo a engenheira Julliana Duarte, representante do Consórcio JYI, responsável pela fiscalização das obras, as estações não foram projetadas especificamente para fazer previsões meteorológicas ou antecipar situações de risco. A finalidade principal será registrar os fenômenos que ocorrerem no local e fornecer informações para o acompanhamento da infraestrutura.
Um dos diferenciais será a possibilidade de cruzar esses registros climáticos com informações produzidas por outros equipamentos instalados na própria ponte, entre eles sensores de força nos estais, acelerômetros e extensômetros.
A combinação dos dados permitirá aos responsáveis pela manutenção avaliar como a ponte reage a diferentes condições de temperatura, chuva e vento e verificar se seu comportamento permanece dentro dos parâmetros previstos pelo projeto.
Temperatura e velocidade dos ventos estão entre as variáveis de maior interesse para o acompanhamento da estrutura. Embora as estações meteorológicas não façam parte inicialmente de um sistema de alerta antecipado, a tecnologia permitirá incorporar essa função futuramente.
O sistema poderá, por exemplo, ser programado para emitir um alerta quando a velocidade dos ventos ultrapassar níveis considerados críticos para a circulação de veículos.
Os registros históricos ficarão à disposição do Ministério de Obras Públicas e Comunicações (MOPC) do Paraguai, responsável pela operação e manutenção da infraestrutura.
Ponte pronta não significa corredor liberado
Apesar da fase avançada da estrutura sobre o Rio Paraguai, a conclusão da ponte não significa a abertura imediata do corredor ao tráfego. A operação depende também dos acessos rodoviários e das estruturas necessárias ao funcionamento da fronteira.
No Paraguai, segue em construção a ligação entre a cabeceira da ponte e a rodovia PY-15.
Do lado brasileiro, o DNIT executa 13,1 quilômetros de acesso entre a BR-267 e a ponte, além do Centro Unificado de Fronteira. A conclusão desse conjunto de intervenções está prevista para o segundo semestre de 2027.
Com a infraestrutura completa, a ligação deverá integrar o Centro-Oeste brasileiro aos portos chilenos do Pacífico por um corredor terrestre através de Paraguai e Argentina.
Para Mato Grosso do Sul, a expectativa em torno da Rota Bioceânica está principalmente na criação de uma alternativa logística para as exportações, com potencial de reduzir distâncias e tempo de transporte em determinados fluxos destinados aos mercados asiáticos.





