04/09/2026 04:49

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Três em cada dez mulheres de MS relatam violência sem reconhecê-la

Pesquisa mostra distância entre situações vivenciadas e o reconhecimento espontâneo da violência doméstica.

Da Redação

Cerca de 32% das mulheres de Mato Grosso do Sul relataram ter vivido ao menos uma situação concreta de violência nos 12 meses anteriores à pesquisa, mas não declararam espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar.

O dado consta na atualização do Mapa Nacional da Violência de Gênero, elaborado com os resultados estaduais da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. O resultado de Mato Grosso do Sul está dentro da margem de erro da estimativa nacional, de 29%, o que não permite afirmar que o índice estadual seja estatisticamente diferente do brasileiro.

Mantido pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), Instituto Natura e Gênero e Número, o mapa busca demonstrar a diferença entre as situações vivenciadas pelas mulheres e os casos que chegam aos serviços de atendimento e aos registros oficiais.

Realizada pelo DataSenado em 2025, a pesquisa ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais em todo o país, entre 16 de maio e 8 de julho. O levantamento tem amostra probabilística e nível de confiança de 95%.

“Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda”, afirma Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal.

Violência atingiu 31% das mulheres ao longo da vida

Em Mato Grosso do Sul, 31% das entrevistadas afirmaram já ter sofrido violência doméstica ou familiar praticada por um homem em algum momento da vida.

Considerando apenas os 12 meses anteriores à pesquisa, 13% declararam espontaneamente ter sofrido esse tipo de violência.

Entre as sul-mato-grossenses que relataram violência praticada por um homem:

  • 89% sofreram violência psicológica;
  • 84% relataram violência moral;
  • 81% disseram ter sofrido violência física.

Em 64% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão. Do total de vítimas no Estado, 18% ainda conviviam com o homem que as agrediu. Entre elas, 75% continuavam morando com o agressor.

Nas situações consideradas mais graves, 62% das mulheres disseram que o agressor estava com ciúmes, 51% apontaram inconformismo com o término ou a tentativa de encerramento do relacionamento e 49% afirmaram que ele estava embriagado.

Para 83% das entrevistadas que romperam o relacionamento, a violência teve muita influência na decisão.

Agressões afetam rotina, trabalho e estudos

Os impactos das agressões ultrapassaram o momento em que ocorreram. Entre as vítimas, 67% afirmaram que a rotina diária foi afetada e 65% relataram prejuízos na convivência com outras pessoas.

A violência também afetou a vida profissional ou o trabalho remunerado de 48% das mulheres e os estudos de 45%.

“Os dados ajudam a romper com uma leitura da violência doméstica como um episódio isolado. A violência não termina quando a agressão acaba. Ela reorganiza a rotina, afeta relações, trabalho, renda e as possibilidades que uma mulher tem de tomar decisões sobre a própria vida”, avalia Vitória Régia da Silva, diretora-executiva da Gênero e Número.

Conhecimento sobre medidas protetivas é limitado

Embora 93% das entrevistadas em Mato Grosso do Sul conheçam ou já tenham ouvido falar da Delegacia da Mulher, o levantamento aponta conhecimento limitado sobre alguns dos instrumentos de proteção.

Em relação à Lei Maria da Penha, 66% disseram conhecê-la pouco e 12% afirmaram não conhecer nada sobre a legislação.

Sobre as medidas protetivas, 66% relataram pouco conhecimento e 16% disseram desconhecer o recurso. Somados, 82% apresentaram conhecimento superficial ou inexistente.

Os serviços mais conhecidos pelas mulheres no Estado são:

  • Delegacia da Mulher: 93%;
  • Defensoria Pública: 91%;
  • Centro de Referência de Assistência Social (Cras) ou Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas): 88%;
  • Central de Atendimento à Mulher, pelo telefone 180: 78%.

A pesquisa também mostra que 70% das sul-mato-grossenses conhecem alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que sofreu violência doméstica ou familiar.

Para 83% das entrevistadas, houve aumento da violência contra as mulheres nos 12 meses anteriores ao levantamento. Além disso, 64% classificaram o Brasil como um país “muito machista”.

Quase 94% ficaram distantes da proteção policial no país

Em todo o Brasil, a pesquisa estima que quase 29 milhões de mulheres sofreram violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento.

Desse total, 24,97 milhões, aproximadamente 87%, relataram situações concretas de violência sem nomeá-las espontaneamente dessa forma.

Outras 1,87 milhão reconheceram ter sofrido violência, mas não acionaram a delegacia, o Ligue 180 ou a Polícia Militar, pelo telefone 190.

Somados, os dois grupos correspondem a 26,84 milhões de mulheres, ou 93,6% das vítimas, que não reconheceram espontaneamente a violência ou não buscaram proteção policial.

“Para quase 25 milhões de brasileiras, a violência aparece apenas quando perguntamos o que aconteceu, mas desaparece quando perguntamos diretamente se elas sofreram violência. Isso revela uma barreira anterior ao próprio acesso à política pública: reconhecer e nomear o que se está vivendo”, afirma Beatriz Accioly, gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra as Mulheres do Instituto Natura.

No questionamento direto, 4% das brasileiras declararam ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores. Quando foram apresentadas situações específicas, sem a utilização do termo “violência”, 33% relataram experiências compatíveis.

A diferença de 29 pontos percentuais representa a parcela de mulheres que vivenciou essas situações sem reconhecê-las ou nomeá-las espontaneamente como violência doméstica.

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