05/05/2026 23:03

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Feminicídio expõe ciclo de violência e medo que aprisiona vítimas em MS

Estado soma 12 mortes em 2026; especialista aponta fatores emocionais, sociais e econômicos.

Da Redação

De acordo com o especialista, o feminicídio raramente é um ato isolado ou impulsivo, mas o desfecho de um processo contínuo de violência (Foto: PVP Productions/Magnific).

Mais um caso de feminicídio registrado no fim de semana reforça o cenário de violência contra a mulher em Mato Grosso do Sul. A vítima, Zelita Rodrigues de Souza, de 74 anos, foi encontrada com marcas de agressão. O principal suspeito é o companheiro, Vicente Asuncion Vidal Gonzalez, de 41 anos. Com o crime, o Estado chega a 12 vítimas de feminicídio em 2026.

De acordo com relatos de familiares à imprensa, a violência já era recorrente. A idosa sofria agressões físicas e verbais constantes, o que levanta uma questão frequente nesses casos: por que muitas mulheres permanecem em relações abusivas, mesmo diante de sinais claros de risco?

Para o psiquiatra Eduardo Araújo, não há uma única resposta, mas um conjunto de fatores que dificultam a ruptura. “A dependência financeira ainda é um dos principais pontos. Muitas mulheres não têm autonomia para sair da relação. Soma-se a isso a falta de apoio, o medo de não serem acreditadas e, em alguns casos, até a culpabilização da própria vítima”, explica.

Segundo ele, há também mecanismos emocionais que contribuem para a permanência no ciclo de violência. “O relacionamento abusivo não é violento o tempo todo. Existe alternância entre agressões e períodos de aparente afeto. O agressor promete mudar, pede perdão, o que gera esperança e confusão emocional. Ao mesmo tempo, ele reduz a autoestima da mulher, fazendo com que ela se sinta incapaz de sair”, afirma.

Os dados reforçam a gravidade do problema. Além dos feminicídios, Mato Grosso do Sul já registrou 42 tentativas de homicídio contra mulheres até maio de 2026. Em relação à violência doméstica, 7.316 mulheres formalizaram denúncias neste ano. Em 2025, foram mais de 22 mil registros.

Informações da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública indicam que a maioria dos casos ocorre dentro de casa e tem como autores cônjuges ou parceiros, o que evidencia o caráter íntimo e recorrente da violência.

Escalada da violência

De acordo com o especialista, o feminicídio raramente é um ato isolado ou impulsivo, mas o desfecho de um processo contínuo de violência. “O agressor costuma apresentar ciúme patológico, necessidade de controle e baixa tolerância à frustração. Ele não reconhece a mulher como sujeito, mas como uma extensão de si”, afirma.

O momento de maior risco, segundo ele, ocorre quando a vítima tenta encerrar o relacionamento. “A rejeição é interpretada como perda de controle. Para alguns perfis, isso é intolerável. É quando a violência pode atingir o nível mais extremo”, explica.

Esse comportamento segue um padrão conhecido, descrito como ciclo da violência. “Ele começa com tensão, evolui para agressão e depois entra na fase de ‘lua de mel’, quando o agressor demonstra arrependimento. Esse ciclo se repete e tende a se intensificar”, diz.

Além dos fatores individuais, o psiquiatra aponta elementos estruturais. “Muitos agressores cresceram em ambientes onde a violência era normalizada. O machismo reforça a ideia de domínio sobre a mulher e perpetua esse comportamento”, afirma.

Para ele, o enfrentamento do problema exige ações além da punição. “O feminicídio não começa no momento do crime. Ele começa no controle, na humilhação, no isolamento e no silêncio. Se esse ciclo não for interrompido antes, a violência escala”, conclui.

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