Projetos combinam bases neutras, texturas e objetos afetivos para criar ambientes confortáveis e atemporais.
Da Reddação

Durante anos, o minimalismo dominou a arquitetura e o design de interiores, com ambientes claros, poucos objetos e linhas retas. Como contraponto, o maximalismo ganhou espaço com cores, estampas e abundância de informações visuais. Agora, uma nova forma de morar mostra que não é preciso escolher entre os dois extremos.
Para as arquitetas Danielle Dantas e Paula Passos, do escritório Dantas & Passos Arquitetura, os projetos atuais buscam conciliar organização e funcionalidade com personalidade, conforto e memória afetiva.
“A estética, sozinha, não sustenta uma boa experiência dentro de casa. As pessoas perceberam que o lar precisa refletir quem elas realmente são. Como ninguém vive apenas de um único estilo, os projetos deixaram de seguir regras tão rígidas”, explicam.
A transformação também está relacionada às novas funções assumidas pela residência. Além de um local de descanso, a casa passou a concentrar trabalho, lazer, encontros e diferentes momentos da rotina familiar.
Com isso, ambientes excessivamente neutros ou planejados apenas para impressionar passaram a dividir espaço com soluções mais acolhedoras e próximas da vida real.
Casa não precisa parecer showroom
O movimento não significa um retorno ao maximalismo clássico. A tendência é manter a organização, a circulação e a funcionalidade, incorporando cores, texturas, obras de arte, materiais naturais e objetos que contem a história dos moradores.
“As pessoas começaram a entender que uma casa bonita não precisa parecer um showroom. Existe uma valorização maior de ambientes que transmitam pertencimento, que pareçam realmente habitados e contem a história de quem mora ali”, afirma Paula Passos.
Na prática, o equilíbrio pode ser construído a partir de uma base neutra e atemporal em pisos, revestimentos, marcenaria e grandes superfícies. A personalidade aparece em elementos mais fáceis de substituir, como quadros, almofadas, tecidos, luminárias e peças adquiridas ao longo da vida.
Essa estratégia permite renovar o visual dos ambientes sem a necessidade de grandes reformas. Também aumenta a vida útil do projeto, já que os elementos permanentes não ficam presos a tendências passageiras.
Madeira em tons médios, pedras naturais com veios suaves, metais escovados, pinturas foscas, linho, bouclé, camurça, fibras naturais e granilite são alguns dos materiais que podem acrescentar profundidade sem provocar excesso visual.
“Mais do que um novo estilo, estamos vendo o fortalecimento de uma arquitetura mais sensorial. Iluminação suave, texturas naturais, formas menos rígidas e a mistura equilibrada entre peças antigas e contemporâneas ajudam a criar ambientes que permanecem atuais por muito mais tempo”, destaca Paula.
Como criar uma casa atemporal
Para quem está reformando ou decorando, o primeiro passo não é escolher um estilo, mas pensar na sensação desejada ao entrar em casa. A resposta deve considerar os hábitos, as atividades e as necessidades da família.
As arquitetas recomendam investir em pisos, revestimentos e marcenaria que possam permanecer por muitos anos. Quanto mais atemporal for essa base, maior será a liberdade para modificar a decoração posteriormente.
Quadros, almofadas, luminárias, objetos decorativos e obras de arte podem ser utilizados para mudar cores e composições sem intervenções estruturais. Móveis herdados, lembranças de viagens e fotografias também ajudam a construir uma identidade que não pode ser reproduzida apenas com referências encontradas na internet.
Outra possibilidade é trabalhar com diferentes texturas. Madeira, pedras, tecidos e fibras naturais acrescentam profundidade visual sem exigir uma grande variedade de cores ou estampas.
“O que costuma permanecer bonito ao longo do tempo não é necessariamente um estilo específico, mas a coerência entre arquitetura, materiais, proporções e o modo como a família vive. Projetos muito extremos tendem a envelhecer mais rapidamente”, observa Danielle Dantas.
O equilíbrio visual também depende da proporção, da escala e da distribuição de móveis e objetos. Alternar superfícies lisas e texturizadas, repetir materiais de maneira controlada e combinar peças leves e robustas são algumas das soluções indicadas.
A iluminação pode ser utilizada para criar profundidade, destacar objetos e delimitar diferentes usos dentro de um mesmo ambiente.
“Muitas vezes, não é preciso comprar mais decoração. O que faz diferença é retirar alguns elementos para valorizar aqueles que realmente importam”, ressaltam as arquitetas.
Segundo elas, uma alternativa é organizar o ambiente em camadas. A primeira é formada pelos móveis principais. A segunda acrescenta conforto com tapetes, cortinas e tecidos. A última incorpora personalidade por meio de objetos, fotografias e obras de arte.
Maximalismo com curadoria
Quem prefere casas mais coloridas e expressivas não precisa abandonar o maximalismo. A diferença é que a proposta atual valoriza mais a curadoria do que a quantidade.
Em vez de ocupar todos os espaços disponíveis, a orientação é construir camadas de maneira consciente, preservando a circulação, a organização e o conforto visual.
Uma das estratégias é definir um elemento protagonista em cada ambiente. Pode ser uma obra de arte, uma parede colorida, uma estampa, um móvel ou uma coleção. Os demais componentes devem dialogar com esse destaque.
Repetir materiais ou cores ajuda a criar unidade, enquanto áreas mais livres funcionam como pontos de respiro entre superfícies e objetos intensos.
“O erro normalmente não está no excesso de personalidade, mas na ausência de hierarquia visual. É possível misturar cores, estampas, obras de arte e coleções sem comprometer o conforto, desde que exista equilíbrio entre todos esses elementos”, explicam Danielle e Paula.
Para as arquitetas, o objetivo final é criar espaços capazes de acompanhar a vida dos moradores. Mais do que aparecer nas cores ou na decoração, a personalidade da casa deve estar presente na forma como os ambientes funcionam e acolhem a rotina.
“O grande luxo contemporâneo não é ter uma casa que parece uma imagem de referência. É ter uma casa que funciona para quem mora nela. Um projeto bem resolvido não é aquele que segue um estilo à risca, mas aquele que continua fazendo sentido ao longo do tempo”, concluem.




