Prefeitura condiciona aprovação do negócio à renovação da frota e melhorias no transporte coletivo.
Da Redação

Depois de uma CPI, uma intervenção administrativa e sucessivas cobranças por melhorias, o transporte coletivo de Campo Grande pode estar prestes a mudar de comando. O Consórcio Guaicurus anunciou nesta terça-feira (21) a venda das quatro empresas que operam o sistema ao Grupo HP, mas a Prefeitura condicionou a aprovação do negócio à apresentação de um plano de reestruturação que inclua renovação da frota, ônibus com ar-condicionado, reforma dos terminais e o cumprimento integral do contrato de concessão.
Em nota oficial, o Consórcio Guaicurus informou que o contrato de compra e venda foi assinado no último sábado (18) entre as empresas consorciadas e a Maas Administração e Participações Ltda., sociedade de propósito específico integrante do Grupo HP. A negociação envolve a aquisição da Viação Cidade Morena, Jaguar Transportes Urbanos, Viação Campo Grande e Viação São Francisco, responsáveis pela operação do Sistema Integrado de Transporte (SIT) da Capital.
Segundo o comunicado, a operação já foi informada ao poder concedente, mas ainda depende da aprovação das autoridades competentes para que a transferência do controle seja efetivada. As empresas também afirmaram que permanecem à disposição da administração municipal para discutir soluções que assegurem a continuidade e a qualidade do transporte coletivo.
Prefeitura impõe condições para aprovar a venda
A prefeita Adriane Lopes afirmou que a simples troca de controlador não será suficiente para obter a anuência do município. Segundo ela, a futura operadora precisará apresentar um plano consistente de investimentos e demonstrar capacidade para cumprir as obrigações previstas no contrato de concessão.
“Não há como recepcionar uma empresa de fora sem propor mudanças. Precisamos que o contrato seja cumprido, com ônibus novos, ar-condicionado e reforma dos terminais. Queremos que seja concretizado o que, historicamente, não vem sendo cumprido em Campo Grande”, declarou.
A chefe do Executivo também relacionou a negociação ao processo de intervenção instaurado pelo município. “Observado o descumprimento do contrato, poderia ser decretada a caducidade com nova licitação, ou até a comercialização da empresa durante esse processo, que foi o que ocorreu”, afirmou.
Apesar das negociações, a Prefeitura informou que a intervenção permanece em vigor. O comitê interventor continua realizando auditorias operacionais, administrativas e financeiras, enquanto analisa os mecanismos legais para exigir melhorias no serviço. Segundo o município, a eventual mudança de controle não provocará interrupções na operação nem alterações na tarifa paga pelos usuários.
Da CPI à venda: a escalada da crise
A negociação para venda das empresas ocorre no momento mais delicado da história recente do transporte coletivo de Campo Grande e é resultado de uma sequência de medidas adotadas diante dos problemas registrados no sistema.
A crise ganhou força em 2025, quando a Câmara Municipal instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o contrato de concessão do transporte coletivo. Após meses de apuração, os vereadores apontaram descumprimentos contratuais relacionados à idade da frota, à qualidade do serviço e à execução do contrato, recomendando a intervenção administrativa e a substituição de 197 ônibus que já haviam ultrapassado o limite de vida útil previsto na concessão.
As conclusões da CPI embasaram uma ação popular ajuizada no fim de 2025, que pediu à Justiça a intervenção no sistema. Em dezembro do ano passado, a Prefeitura foi intimada a adotar providências.
Já em 2026, o município instituiu uma comissão técnica para avaliar a situação da concessão. O grupo identificou uma série de irregularidades, entre elas frota envelhecida, elevado número de viagens não realizadas, falhas em inspeções, ausência de seguros obrigatórios em parte dos veículos e milhares de infrações operacionais acumuladas ao longo da execução do contrato.
Com base nesse relatório, a Prefeitura decretou, em junho deste ano, intervenção administrativa por até 180 dias no Contrato de Concessão nº 330/2012. Desde então, um interventor municipal passou a acompanhar a gestão do sistema enquanto são realizadas auditorias financeiras, operacionais e patrimoniais.
É justamente durante esse período de intervenção que o Consórcio Guaicurus anunciou a venda das quatro empresas que operam o transporte coletivo da Capital. A transferência do controle, porém, somente será concluída após a aprovação do município e das demais autoridades competentes.





