Levantamento analisou 42,7 mil financiamentos da safra 2025/26; divergências somam R$ 2,2 bilhões.
Da Redação

Um estudo da Serasa Experian identificou aderência entre a finalidade do financiamento e o cultivo encontrado em 82,6% das operações de crédito rural analisadas na safra de soja 2025/26.
O resultado indica que, na maior parte dos casos monitorados, a soja prevista na contratação do crédito foi identificada nas áreas informadas pelos produtores. O índice ficou 6,6 pontos percentuais acima dos 76% registrados na safra 2022/23.
Denominado Mapa da Soja, o levantamento utilizou sensoriamento remoto e imagens de satélite para avaliar 42.691 operações de custeio, correspondentes a 1,97 milhão de hectares financiados.
Dos contratos analisados, 66,7% não apresentaram possíveis desvios de finalidade. Outros 15,9% registraram diferença de até 10% entre a área financiada e o cultivo identificado.
Segundo a Serasa Experian, as pequenas divergências podem estar relacionadas à escala do mapeamento ou a imprecisões nos limites das glebas informadas. Por isso, não representam necessariamente uma irregularidade.
Divergências superiores a 10% aparecem em 17,4% dos casos
Em 17,4% das operações, a diferença entre a área financiada e a presença da soja ultrapassou 10%. Desse total:
- 10,6% apresentaram divergência entre 10% e 50% da área contratada;
- 3,7% registraram diferença entre 50% e 90%;
- 3,1% tiveram divergência entre 90% e 100%.
Em um dos casos avaliados, nenhuma plantação de soja foi identificada nos 76,54 hectares financiados para a cultura. As imagens de satélite apontaram a presença de outro cultivo na área.
Em outra operação, a soja foi encontrada em apenas 10,42 dos 37 hectares contratados, diferença equivalente a 71,8% da área financiada.
A Serasa Experian ressalta que os resultados obtidos por sensoriamento remoto servem como sinais de atenção e não comprovam, isoladamente, o uso irregular dos recursos.
Operações com divergências somam R$ 2,2 bilhões
As operações com diferença superior a 10% estão associadas a mais de R$ 2,2 bilhões em crédito concedido. O valor representa aproximadamente 25% de todo o volume financeiro avaliado pelo estudo.
Para Marcelo Pimenta, responsável pela área de agronegócio da Serasa Experian, os dados podem ajudar as instituições financeiras a direcionar análises mais detalhadas para contratos com maiores divergências.
“Quando transformamos imagens de satélite e dados territoriais em indicadores objetivos, o monitoramento deixa de depender de uma análise amostral. A tecnologia ajuda a identificar onde estão as maiores divergências e permite que a instituição financeira concentre esforços justamente nas operações que demandam maior atenção”, afirma.
Segundo ele, a confirmação de eventuais irregularidades depende de verificações documentais, cadastrais, contratuais e agronômicas.
Quase 98% da área foi plantada dentro do período recomendado
O Mapa da Soja também avaliou as datas de plantio e a exposição das lavouras aos riscos climáticos. Nessa etapa, foram monitorados 1,53 milhão de talhões, que somam 46,9 milhões de hectares.
Do total, 97,8% da área analisada foi plantada dentro dos períodos indicados pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), instrumento que aponta as épocas com menor probabilidade de perdas provocadas por condições meteorológicas adversas.
A distribuição por faixa de risco ficou da seguinte forma:
- 84,9% da área estava na faixa de risco agroclimático de 20%;
- 10,7% estava enquadrada na faixa de 30%;
- 2,2% apareceu na faixa de 40%;
- 2,2% apresentou divergência entre a data estimada de plantio e a janela local indicada.
“O Zarc traz uma dimensão complementar importante para a análise porque permite entender não apenas se a soja foi plantada, mas em que momento isso ocorreu e sob qual nível de exposição agroclimática”, explica Pimenta.
Metodologia
O estudo combinou microdados públicos do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) com mapas de cultivo elaborados pela Serasa Experian.
O processamento utilizou séries temporais de imagens multiespectrais dos satélites Sentinel-2, modelos automáticos de identificação de cultivos e validação amostral por imagens.
Na análise sobre a finalidade dos recursos, foram avaliadas 42.691 operações de custeio da soja, correspondentes a 1,97 milhão de hectares. No recorte territorial e agroclimático, o levantamento considerou 1,53 milhão de talhões e 46,9 milhões de hectares.
A empresa reforça que os indicadores são instrumentos de monitoramento e triagem. As divergências identificadas não constituem, por si só, comprovação de desvio de finalidade ou outra irregularidade.





