Produtores relatam como a recuperação da biodiversidade atrai visitantes e diversifica receitas no campo.
Da Redação

A recuperação ambiental de propriedades rurais tem criado oportunidades de renda com o turismo de observação de aves e de outros animais silvestres. Experiências desenvolvidas em Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo mostram que a atividade pode coexistir com a pecuária, a cafeicultura e outras formas de produção agropecuária.
O tema foi discutido durante a live “Turismo de Observação de Natureza: oportunidades para a agricultura regenerativa”, promovida pela Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (Fera), em parceria com a Avistar e a Associação Nacional de Turismo de Observação de Vida Silvestre (Tovs).
O encontro reuniu quatro produtores e empreendedores que investiram na recuperação ambiental de suas propriedades e passaram a receber observadores de aves e turistas brasileiros e estrangeiros.
A conversa foi mediada por Guto Carvalho, criador e organizador do Avistar Brasil; Alexandre Mansur, diretor de projetos da organização O Mundo que Queremos; e Roséli Azi Nascimento, presidente da Tovs.
Fazenda reúne pecuária, energia e turismo
Em Alta Floresta (MT), a Fazenda Anacã integra pecuária, geração de energia solar, conservação ambiental e turismo de observação de vida silvestre.
Fernão Prado, presidente do Conselho Municipal de Turismo de Alta Floresta e representante da Tovs em Mato Grosso, afirmou que o modelo começou a ser implantado há 12 anos.
“Passamos a olhar para a fazenda como um território múltiplo. O turismo é feito pelas áreas de preservação permanente, sem precisar abrir uma porteira além do acesso principal. As trilhas viraram aceiros que ajudam na conservação da área”, explicou.
A propriedade também criou uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e corredores ecológicos para conectar fragmentos de floresta anteriormente isolados.
“Um local que antes produzia só em parte, hoje é produtivo por inteiro: temos pecuária na área aberta, 12 hectares arrendados para energia solar e, nas áreas verdes, o turismo de observação”, detalhou.
Segundo Prado, a atividade turística já gerou oito empregos e contribuiu para valorizar a propriedade.
Aves levaram propriedade a investir em hospedagem
Também em Mato Grosso, o Jardim da Amazônia Lodge combina turismo, pesquisa científica e conservação em uma área de transição entre a Amazônia e o Cerrado.
A cofundadora do empreendimento, Raquel Zanchet, contou que a propriedade passou por diferentes atividades econômicas desde a década de 1980. Depois da extração de madeira, o local foi destinado à piscicultura. A presença dos peixes atraiu aves e, posteriormente, observadores interessados em conhecer as espécies.
“Começamos com a extração de madeira, depois migramos para a piscicultura e os peixes trouxeram mais aves, que atraíram muitos observadores. Foi assim que decidimos abrir um hotel”, relatou.
Atualmente, a propriedade mantém três trilhas de observação, denominadas macaco-aranha, jatobá e lagoa. O espaço também abriga uma estação de pesquisas que associa produção científica, conservação ambiental e turismo.
Cafeicultura regenerativa atrai visitantes
Em Bueno Brandão (MG), o produtor Valmor Santos Filho passou a integrar a produção de café de montanha a um sistema agroflorestal em 2017.
Segundo ele, a recuperação da vegetação e a maior diversidade de plantas contribuíram para o retorno de aves e outros animais à propriedade onde é produzido o Café Campo Místico.
“Com esse trabalho de agricultura regenerativa, começaram a aparecer muitos bichos e pássaros, por causa da diversidade que criamos”, afirmou.
Localizada a cerca de 160 quilômetros de São Paulo, a propriedade reúne produção, torrefação, consultoria e atividades turísticas relacionadas às diferentes etapas da cafeicultura.
“Fazemos turismo de acordo com a época produtiva: turismo da colheita, turismo da torra. Também fomentamos o comércio local de produções artesanais, como queijo e geleia”, explicou.
Observação de aves atrai estrangeiros a São Paulo
Em Monte Alegre do Sul (SP), a Pousada da Fazenda foi instalada na antiga Fazenda Santa Isabel, propriedade cafeeira do fim do século XIX.
O proprietário, Luís Gonzaga Truzzi, conhecido como Zaga, contou que o local começou como uma pousada rural convencional. O interesse pelo turismo de observação surgiu depois que diferentes espécies de beija-flores passaram a frequentar a propriedade.
Após a divulgação de fotografias em plataformas dedicadas à observação de aves, o espaço começou a receber visitantes interessados em conhecer e registrar as espécies.
“Percebi um nicho de turismo muito promissor”, afirmou. Atualmente, segundo o empresário, a propriedade recebe turistas de países como China, Vietnã e Estados Unidos.
Os relatos mostram que a conservação da biodiversidade pode gerar empregos, ampliar as receitas e valorizar os imóveis rurais sem necessariamente substituir a atividade produtiva original.





