Ilhas que balançam, estradas fechadas, cidade empoeirada, cemitério de trens, deserto
de sal, montanha colorida e celebração.
Ariosto Mesquita (ariostomesquita@gmail.com)

A saída de Cusco por volta das 23 horas foi estratégica. Chegamos na manhã do dia 9 de janeiro a Puno, sul do Peru, em tempo de um reforçado café no terminal rodoviário local. Por lá, uma lanchonete já aguardava o grupo. Historicamente, alguns estudos apontam que a cidade, às margens do Lago Titicaca, foi o berço da civilização Inca. De lá teria partido um clã da tribo Quichua em direção a Cusco, onde estabeleceu-se a capital do futuro império.

Titicaca é um ícone geográfico. Éconsiderado o lago navegável mais alto do mundo (3.800 metros). Através delevivenciamos horas interessantes e curiosas. No porto da cidade, embarcamos em um catamarã para conhecer as ilhas artificiais de Uros. Como o Titicaca banha terras peruanas e bolivianas (ocupando uma área de 8.562 km² – equivalente a 5,5 vezes a área da cidade de São Paulo), em Puno dificilmente você escapará de ouvir a infame ‘piadinha’: “No Peru temos a Titi; a Bolívia fica com a caca”. Ufanismo ou xenofobia a parte, navegamos por cerca de 40 minutos antes do desembarque na primeira ilha.

Ao pisar em “terra firme” percebemos que não era bem assim. A ilhota balançava conforme o ritmo das águas. A explicação é simples: estes espaços dentro do Lago Titicaca foram construídos (e até hoje são erguidos) para servir de moradia e proteção flutuante para as famílias uro-aimarás. A matéria-prima principal é a totora, uma espécie de junco aquático usado também na construção dos estilosos barcos (hoje revestidos por fibra de vidro) e moradias. Os nativos utilizam estas embarcações também como ambiente para “namoro”, pois as residências são pequenas e geralmente com apenas um cômodo. Portanto, a sensação do balanço e de pisar em algo fofo e sensível, é constante. Caso uma embarcação passe ao lado e movimente as águas, você sentirá as ondulações sob seus pés.

Nestas ilhas, os moradores aproveitam para tentar negociar artesanato. As crianças funcionam como um apelo emocional forte. Geralmente se aproximam com uma carinha chorosa, de piedade, implorando para você comprar e assim ajudar na sobrevivência das famílias. A estimativa é que perto de 2.500 pessoas vivam distribuídas por mais de 120 ilhas artificiais. Vale ainda experimentar um curto passeio nas icônicas e estilosas embarcações. São as “balsas de totora”, geralmente de predominância de cor amarela e com proas decoradas, quase sempre por representações de animais.

Mudança de rumo

Na volta ao porto, o grupo se distribuiu por restaurantes pela orla para se despedir da culinária peruana. Destaque para a truta com queijo assado e legumes. Terminado o almoço, hora de embarcar na “nave-mãe” rumo a Uyuni, na Bolívia, cuja chegada estava prevista para a madrugada do dia 10. Só que não! Em janeiro de 2026, a Bolívia enfrentou intensos bloqueios de estradas organizados por sindicatos, caminhoneiros e movimentos sociais, com o pico das paralisações ocorrendo por volta da segunda semana do mês. Caso mantivéssemos o trajeto, passaríamos pelo “olho do furacão” destas manifestações e as chances de ficarmos presos no país vizinho seriam grandes.
Faltava muito pouco para entrar na Bolívia. Estávamos bem próximos da fronteira com o Peru. Mas depois de manter contato com operadoras da região e outros viajantes, o experiente líder/guia, Jonas Medeiros, conseguiu um panorama das interdições e entendeu ser mais prudente retornar ao Chile e de lá tentar entrar em território boliviano por vias menos visadas pelos manifestantes. Foi uma corrida contra o tempo pois a aduana chilena fechava às 21 horas para só reabrir no dia seguinte.

Deu certo. Cortamos o Chile noite adentro e amanhecemos o dia 10 de janeiro na aduana de Tambo Queimado, sob um frio de dois graus negativos. Com 14 horas de atraso, entramos na Bolívia e, ao final do dia, chegamos à pequena e poeirenta Uyuni, cidade com altitude média de 3.700 metros, localizada no departamento de Potosi, sudoeste da Bolívia.
Com quase todas ruas sem pavimentação, ventos fortes e frios e casas simples, geralmente inacabadas, Uyuni dá uma sensação de “velho oeste”. Para completar, a organização da Expedição recomendou não consumir alimentos aleatoriamente pela cidade. Jonas Medeiros relatou casos de intoxicação de brasileiros em viagens anteriores. A orientação “segura” era encarar um jantar na chegada – restaurante indicado e checado pela Nova Palmira – café da manhã e um “festival de pizzas”, ambos no hotel.
Sal pra todo lado

Independente de eventuais limitações, recomendações e particularidades, vale muito à pena conhecer Uyuni. Podemos afirmar que é essencial em uma expedição deste nível. Em 11 de janeiro, um ensolarado domingo, vivenciamos algumas das mais incríveis experiências da expedição.
A primeira visita foi ao Cemitério de Trens de Uyuni. O viajante desavisado pode se limitar a compreender o espaço como um enorme “ferro velho” de um sucateado e “ultrapassado” modelo de transporte para a região. Mas, na verdade, é espaço para resgate da memória histórico/econômica da Bolívia; um projeto que não avançou por questões geopolíticas.

Uyuni tem uma localização muito próxima a reservas minerais. No final do século XIX, trens partiam dali carregados de estanho e prata, principalmente. A maioria das cargas seguia por via férrea até Antofagasta, no litoral, para ser exportada. Com a Guerra do Pacífico (1879-1884 – mais informações no Episódio 2) a Bolívia perdeu acesso ao mar (Antofagasta hoje pertence ao Chile) e, aos poucos, locomotivas e vagões (grande parte importada da Inglaterra) foram abandonados. A ação dos ventos, carregados de sal, ajudou na deterioração acelerada e na imagem enferrujada atual.

Este mesmo sal tornou-se protagonista na região. Depois de uma ligeira parada no Monumento Rally Dakar e Bandeiras (Construído para homenagear a passagem da competição off-road pelo país – 2014/2018), reservamos o final da manhã para conhecer Colchani, uma “cidade feita de sal”. Nada é estupendamente grandioso, mas impressiona. A vila realmente utiliza este composto mineral como matéria prima de suas construções. Lá estão fábricas, um mercado de souvenirs e um museu; tudo de sal. Para quem quer se hospedar existe também o Hotel de Sal. Para diversão e fotos, aproveite o labirinto, as estátuas e a pirâmide. Sim! Tudo realmente de sal.

Era o aperitivo para o prato principal. Se Colchani é inusitado e mais parece um conjunto de ambientes de fantasia, a transição de lá até o vizinho e badalado Salar de Uyuni mais parece um mergulho em outra dimensão. Na prática, na medida em que há uma imersão neste ambiente, nossa visão começa a confundir o que é terra e o que é céu. Por muitas vezes isso se mescla de forma esteticamente encantadora e deliciosamente perturbadora.

Atravessamos boa parte do Salar em carros 4 x 4. É um verdadeiro deserto branco de sal, ocupando uma área de 10.600 km2 (nativos jogam 12.000 km2) a uma altitude média superior a 3.500 metros. Mesmo em pleno verão, a temperatura durante o dia é bem amena e esfria rapidamente na medida em que a noite se aproxima. Recomenda-se uso de protetor e óculos solar.

Mal a fome apertou, a organização presenteou o grupo com um almoço de domingo em pleno deserto de sal. Na parte da tarde não arredamos pé do Salar, até pelo fato de que a cereja do bolo ainda estava por vir: o por do sol. Para isso seguimos para um ponto em que parte das águas das chuvas de verão ficam temporariamente retidas sobre a superfície, formando uma espécie de espelho, entregando imagens surreais. Ao final do dia, a água espelhada, o sol no poente e nuvens de chuva no mesmo horizonte desenharam obras-primas entre o céu e a terra. Coisa transcendental.

Cores e tortilhas
Na manhã do dia 12 de janeiro a “nave-mãe” definitivamente iniciou seu processo de retorno à base, deixando a Bolívia e entrando pelo noroeste da Argentina rumo ao Brasil. Neste trajeto, porém, ainda havia muito o que registrar. O horário de almoço e grande parte da tarde foi dedicada a uma visita a Purmamarca, acolhedor povoado na Província de Jujuy, aos pés da Montanha das Sete Cores (Cerro de los Siete Colores). Seu festival cromático, de acordo com geógrafos, carrega a memória do tempo, traduzindo marcas e tonalidades de cada época ao longo de aproximadamente 600 milhões de anos.

Mirantes permitem uma visualização privilegiada, mas a montanha pode ser facilmente contemplada – mesmo que parcialmente – do povoado, onde fervilham lojinhas e barracas de artesanato, lembranças dos Andes, comércio de tábuas de parrilha além de vários restaurantes. Não resistimos ao perfume das tortilhas na brasa, assadas nas ruas de Purmamarca. Pagamos 3.000 pesos cada (perto de R$12 na cotação da epoca). Foi o nosso almoço.

Após pernoitar em San Salvador de Jujuy, capital de Jujuy, o grupo seguiu por mais 120 km pra passar o dia 13 de janeiro em Salta, capital da província de mesmo nome, cidade fundada em 1582, e com influências tanto europeias quanto andinas. Do velho continente carrega uma elegância ímpar, presente não só em sua arquitetura quanto nas praças e cafés. Por esses e outros atributos a cidade, com uma população estimada em 750 mil habitantes, (World Population Review/2026), também é conhecida como “La Linda”.

Considerada o berço da Saltenha (tipo de pastel assado popularizado na Bolívia e muito consumido em algumas cidades do Centro-Oeste brasileiro), Salta é um lugar onde história, religião, política e estética se mesclam. Na área central, ao lado de belíssimas igrejas, edificações de diferentes estilos convivem com estátuas e marcos de lideranças de diversas raízes. Em apenas uma quadra registramos construções com três estilos arquitetônicos diferentes: francês, espanhol e sírio, lado a lado.

Nos cafés de Salta ainda é possível saborear uma tortilha e sorver sabores diversos enquanto se lê jornais diários impressos (do dia). Experimentamos a calorosa acolhida do El Pazo Café Bistrot, na badalada Calle Balcarce. A cidade também mantém casas que guardam um pouco da história política local e da Argentina. É o caso do “Bar Los Tribunales”, fundado em 1951. Por suas mesas – frequentadas por homens fortes do legislativo e do executivo – foram debatidas inúmeras decisões sobre cargos, impedimentos e candidaturas ao longo de décadas. Em 2004, o lugar passou a ser considerado de “interesse cultural” pela municipalidade. “Los Tribunales” funciona até hoje na Calle Bartolomé Mitre 601.

No dia 14 de janeiro deixamos Salta para enfrentar quase 24 horas de estrada até Foz do Iguaçu, percorrendo trajeto oposto ao da ida. Foi como assistir o começo de um filme ao contrário. No dia seguinte, já na cidade brasileira, chegávamos ao hotel; aquele mesmo que nos abrigou na ida. Mas a diferença era clara. Não na estrutura da hospedaria, mas no espírito dos hóspedes. Naturalmente, o grupo foi ocupando a piscina, preparando a carne na churrasqueira e colocando música pra tocar. Era a celebração de uma viagem incomum e bem-sucedida.

Depois de uma convivência de 23 dias por estradas, hotéis e destinos da América do Sul, aquelas 26 pessoas, outrora desconhecidas entre si, agora nutriam e compartilhavam um sentimento único: a alegria por tantas descobertas. Para este grupo, a América Latina, os países Incas e suas próprias vidas, nunca mais serão as mesmas.

Encontros, surpresas e aprendizado
Entre os dias 26 de dezembro de 2025 e 16 de janeiro de 2026 (datas de embarque e desembarque na expedição, para a maioria), muita coisa aconteceu. Algumas bem particulares, mas carregadas de emoções. Imagine, por exemplo, uma família se encontrando, quase por acaso, no exterior. Isso aconteceu na Bolívia, mais precisamente em Uyuni, com a expedicionária Renata Patrícia Arnhold e seu marido Sérgio Arnhold. As mudanças no trajeto boliviano e o atraso de algumas horas da expedição permitiu Renata se encontrar com a irmã Vera e o cunhado Marcos em plena viagem.

“Eles moram em Pelotas e nós em Bom Princípio. Apesar de nossas residências serem no Rio Grande do Sul estamos separados por aproximadamente 350 km. Cada casal viajou para um lado e em datas diferentes. Na estrada, quando comentei com minha irmã que estava chegando em Uyuni e informei o nome do hotel, as coisas começaram a convergir. Como estavam de carro, tomaram atalhos e chegaram a tempo de tomar uma cerveja e comer uma pizza conosco. De quebra, ainda conseguiram se hospedar por lá. Foi uma maravilha de encontro”, conta Renata.

Experiente em viagens e expert em trilhas e desafios na altitude, o mecânico Amaraldo Piccoli, residente em Curitiba (PR), se disse surpreendido pela Expedição Inca: “Imaginava lugares com belezas e recursos naturais mais simples e encontrei coisas espetaculares. O Salar de Uyuni é um exemplo.Não pensei que fosse tão grande e impactante. Foi um dos pontos altos da viagem. Machu Picchu também foi marcante. A gente está acostumado a ver imagens por fotos e vídeos, mas o choque visual é grandioso quando se está presente. É sensacional. O impacto histórico é enorme quando imaginamos pessoas vivendo e trabalhando ali, no auge do Império Inca”.
O líder/guia da Expedição, Jonas Medeiros, observou que a aprendizagem é uma constante em expedições como essa. Responsável pela condução do grupo – ao lado dos motoristas Paulo Alexandre Ost (Neco) e Fernando Colla Capellari – ele dá dicas para quem pretendeviver experiências semelhantes pela região: “Esse grupo, em especial, foi muito bom e coeso, mas nem sempre é assim. Cada viagem é um aprendizado,pois lidamos com pessoas de diferentes regiões e demandas. Para quem estiver disposto a encarar, aconselho vir de coração aberto, deixando os problemas em casa. As pessoas devem se preparar para o novo. É uma viagem desafiadora”.





