14/02/2026 19:46

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Pesquisadora aborda riscos do aumento do câncer de pele diante do calor excessivo

(Fiocruz/Divulgação)

Segundo o Ministério da Saúde (MS), o câncer de pele é causado principalmente pela exposição excessiva ao sol e ocorre quando as células se multiplicam de forma desordenada.

A doença, caracterizada por tumores que atingem a pele, pode ser classificada em dois tipos: melanoma e não melanoma. O não melanoma é o mais comum no Brasil e apresenta altas chances de cura, desde que seja detectado e tratado precocemente.

De acordo com o MS, o melanoma pode surgir em qualquer região do corpo – na pele ou nas mucosas – geralmente na forma de manchas, pintas ou sinais. Em pessoas negras, é mais frequente nas áreas mais claras do corpo, como palmas das mãos e plantas dos pés. Quando diagnosticado precocemente e tratado com terapias adequadas, incluindo medicamentos imunoterápicos, pode haver melhora significativa na sobrevida dos pacientes.

Conforme a publicação Estimativa 2026–2028: Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), a exposição à radiação ultravioleta é o principal fator de risco para todos os tipos de câncer de pele, variando de acordo com o tipo de pele. O risco é maior em indivíduos de pele clara, a depender da intensidade e do padrão de exposição solar.

Segundo um outro artigo do Inca, cerca de 23,5% dos trabalhadores brasileiros estão constantemente expostos à radiação solar. Os setores da agricultura, construção civil, abastecimento de água, esgoto e gestão de resíduos apresentam os maiores percentuais de exposição. O estudo aponta que a exposição é mais prevalente entre homens, pessoas pardas, com baixo nível de escolaridade e renda, residentes em áreas rurais, com vínculos informais de trabalho e jornadas superiores a 40 horas semanais. A prevalência nacional é ligeiramente inferior à média mundial (28,4%), o que corresponde a cerca de 1,6 bilhão de trabalhadores expostos globalmente.

A pesquisa também destaca que a exposição ocupacional à radiação solar no Brasil é elevada e desigualmente distribuída por sexo e setor econômico. Nesse contexto, as ações de prevenção nos ambientes de trabalho devem priorizar os grupos mais expostos, considerando determinantes demográficos, socioeconômicos, geográficos e ocupacionais.

Em períodos como o verão e o Carnaval, quando há maior exposição ao calor e à radiação solar, o Informe Ensp entrevistou a médica dermatologista do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh) da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) e pesquisadora em Saúde Pública pela unidade, Ana Luiza Villarinho. Ela alerta para os principais cuidados durante a exposição ao calor extremo e explica como as mudanças climáticas podem impactar o aumento dos casos de câncer de pele.

Informe Ensp: Ao considerar que há dois tipos de câncer de pele (melanoma e não melanoma), de que maneira as mudanças climáticas impactam no aumento dessas doenças?

Ana Luiza Villarinho: Um dos principais fatores de risco para os cânceres de pele é a exposição à radiação ultravioleta (UV) solar. Os danos à camada de ozônio, causados pela emissão de gases como os CFCs (clorofluorcarbonetos), aumentam a incidência de radiação na superfície terrestre e, consequentemente, o risco de câncer de pele. Estima-se que uma redução de 1% na camada de ozônio possa levar a um aumento de 1% a 2% na incidência de melanoma e de até 4% nos casos de câncer de pele não melanoma.

O aquecimento global também induz mudanças comportamentais. Diante de temperaturas mais elevadas, as pessoas tendem a realizar mais atividades ao ar livre e a utilizar roupas mais leves, o que aumenta a exposição da pele à radiação UV e o risco de câncer a longo prazo. Esse cenário afeta especialmente populações vulneráveis, como indivíduos de fototipo baixo (pele clara), trabalhadores ao ar livre, imunossuprimidos e transplantados.

Além disso, poluentes ambientais, como o carbono negro – proveniente da queima incompleta de combustíveis fósseis -, acumulam-se na pele, provocando estresse oxidativo e inflamação crônica. Esses fatores atuam de forma sinérgica com os danos causados pela radiação ultravioleta, elevando a incidência de câncer de pele, especialmente em centros urbanos.

Informe ENSP: Quais são as principais medidas protetivas diante do calor extremo no território brasileiro?

Ana Luiza Villarinho: Em dias de calor intenso, recomenda-se aumentar a ingestão de líquidos, como água e sucos, e evitar a exposição ao ar livre nos horários de maior incidência de radiação ultravioleta (das 10h às 16h). É importante usar chapéus de abas largas, óculos escuros e dar preferência a roupas de manga comprida com proteção UV, especialmente em exposições prolongadas, seja em atividades de lazer ou de trabalho. A aplicação regular de filtro solar também é fundamental.

Os protetores solares devem ter fator de proteção (FPS) igual ou superior a 30, ser aplicados de forma generosa antes da exposição ao sol e reaplicados a cada duas horas — ou com maior frequência em caso de banho de mar, piscina ou sudorese intensa. É essencial redobrar a atenção com idosos e crianças, que se desidratam com mais facilidade e podem apresentar sintomas de insolação em períodos mais curtos de exposição.

Informe ENSP: Em época de carnaval, quais são os principais cuidados em relação à exposição excessiva ao calor?

Ana Luiza Villarinho: Para os foliões, recomenda-se ingerir líquidos regularmente. Bebidas alcoólicas devem ser evitadas ou consumidas com moderação, pois aumentam o risco de desidratação.

É preferível optar por blocos que ocorram fora do horário de maior incidência de radiação UV (das 10h às 16h) e buscar áreas de sombra sempre que possível. Chapéu e óculos escuros podem e devem fazer parte da fantasia, assim como o filtro solar, que deve ser aplicado antes de maquiagens e purpurinas para maior eficácia.

Também é importante ter cuidado com cosméticos aplicados na raiz dos cabelos e na testa, pois o calor pode provocar derretimento, e o suor pode levar os produtos aos olhos, causando irritações, conjuntivite ou até ceratite química. Essas orientações valem igualmente para quem optar por passar o feriado na praia.

Informe ENSP: A cor da pele influencia na incidência do câncer? Qual impacto disso na saúde pública?

Ana Luiza Villarinho: Pessoas brancas possuem menor quantidade de melanina, pigmento que protege o DNA das células da pele contra os efeitos nocivos da radiação solar. Indivíduos de fototipo baixo apresentam maior risco de queimaduras solares, o que se associa a uma maior ocorrência de câncer de pele, tanto melanoma quanto não melanoma. Estudos indicam que o risco relativo de melanoma pode ser até duas vezes maior em pessoas brancas em comparação com pessoas negras.

Embora o câncer de pele possa ocorrer em qualquer grupo racial, as políticas públicas devem priorizar estratégias de educação e prevenção voltadas aos grupos mais vulneráveis. Isso inclui a atenção à saúde do trabalhador, com oferta de equipamentos de proteção individual adequados e realização de exames regulares de rastreamento no âmbito da Atenção Primária à Saúde no Sistema Único de Saúde (SUS).

Informe ENSP: Como o Serviço de Dermatologia do Cesteh/Ensp atua junto aos trabalhadores expostos ao sol?

Ana Luiza Villarinho: O Cesteh desenvolve regularmente projetos com trabalhadores expostos à radiação ultravioleta solar, como jardineiros, guardas e agentes de endemias, com foco na detecção precoce, educação em saúde e prevenção do câncer de pele ocupacional. Trabalhadores com lesões suspeitas ou danos cutâneos relacionados à exposição solar são encaminhados para atendimento especializado.

Também são promovidas palestras e atividades educativas sobre o uso adequado de equipamentos de proteção individual e estratégias para reduzir a exposição solar durante a jornada de trabalho. Além disso, o Centro avalia o nexo causal entre o câncer de pele e a exposição solar ou a agentes químicos no ambiente ocupacional e realiza a notificação dos casos, contribuindo para a produção de dados que subsidiem políticas públicas de prevenção.

*Por Guilherme Oliveira e Isabelle Ferreira (sob supervisão da equipe do Informe Ensp)

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