A trajetória do Hospital São Julião, em Campo Grande, desde suas origens como instituição dedicada ao atendimento de pessoas com hanseníase até se tornar referência em saúde em Mato Grosso do Sul, foi reunida em um álbum histórico que celebra seus 85 anos. A publicação, assinada pela escritora e jornalista Lenilde Ramos, tem 140 páginas e 530 fotografias que documentam as transformações na estrutura hospitalar, no tratamento da doença e na relação com os pacientes.

O trabalho é resultado de décadas de pesquisa e organização de documentos. Para produzir o álbum, Lenilde consultou um acervo de aproximadamente 4 mil fotografias e registros históricos, incluindo materiais trazidos da Itália. A elaboração da publicação levou cerca de um ano e meio, mas a autora afirma que o projeto começou a ser construído há mais de três décadas.

“Há mais de 30 anos venho estruturando a melhor forma de contar a história do São Julião. O pioneiro nesse caminho foi Lino Villachá (1938-1994), paciente hanseniano, poeta e cronista, que escreveu cinco livros relatando suas memórias, revelando personagens e registrando o trabalho que transformou a estrutura física e a vida de tantas pessoas. Convivi com ele durante 25 anos, mergulhei em seus escritos e hoje dou continuidade à sua obra”, relata.

Organizado cronologicamente, o álbum percorre diferentes períodos da instituição, desde sua inauguração, passando pela chegada de voluntários italianos e pela criação da Associação Beneficente de Auxílio e Recuperação dos Hansenianos, até a ampliação dos serviços médicos.

Irmã Silvia e a transformação do hospital

Um dos principais personagens dessa trajetória é a religiosa italiana Irmã Silvia Vecellio, hoje com 95 anos, que dedicou cerca de seis décadas ao Hospital São Julião.

Quando conheceu a instituição, em 1964, encontrou uma realidade marcada pelo isolamento social de pacientes com hanseníase, por dificuldades estruturais e pelo preconceito associado à doença.

A transformação envolveu a recuperação das instalações, a mobilização de profissionais de saúde, a participação de voluntários e mudanças na forma de atendimento aos pacientes.

Segundo Lenilde, Irmã Silvia teve papel decisivo nesse processo, reunindo profissionais de diferentes áreas e articulando iniciativas para melhorar as condições de atendimento e a estrutura do hospital.

“Foi uma grande gestora que fez tudo em silêncio, sem personalismo, por isso, esse álbum também é uma homenagem a ela”, afirma a autora.

Autora participou da reconstrução

A relação de Lenilde Ramos com o hospital começou ainda na juventude. Aluna do Colégio Auxiliadora, ela teve Irmã Silvia como professora e passou a acompanhá-la em visitas às comunidades periféricas de Campo Grande.

Em 1970, aos 18 anos, iniciou seu trabalho voluntário no projeto de reconstrução da instituição. Ao longo dos anos, atuou como professora, secretária e animadora cultural, além de reunir depoimentos de pacientes e trabalhadores.

Após a morte de Lino Villachá, em 1994, assumiu a continuidade do trabalho de preservação da memória do hospital. Em 2011, publicou o livro História sem Nome, dedicado à realidade da hanseníase e às mudanças ocorridas na instituição.

O novo álbum amplia esse registro ao reunir fotografias, documentos e relatos de pessoas que participaram da construção do São Julião ao longo das décadas.

Hospital realizou 574 mil procedimentos em 2025

A instituição, inicialmente voltada ao atendimento de pessoas com hanseníase, atualmente oferece serviços em mais de 20 especialidades médicas e recebe pacientes de diferentes municípios de Mato Grosso do Sul.

Segundo os dados divulgados pelo hospital, foram realizados 574 mil procedimentos em 2025.

O São Julião é referência no tratamento da hanseníase e em oftalmologia. De acordo com a instituição, responde por 92,55% das cirurgias oftalmológicas realizadas no estado. Também mantém programas de residência médica em Clínica Médica e Oftalmologia.

Outra frente de atuação é a gestão ambiental. Instalado em uma área de 240 hectares, o hospital informa ser o primeiro do Brasil e da América Latina a alcançar a condição de Hospital Lixo Zero.

Atualmente, 86% dos resíduos sólidos gerados pela instituição são desviados de aterros sanitários, por meio de processos de reciclagem e aproveitamento de matéria orgânica utilizada nas áreas verdes e em projetos de reflorestamento.

Para o presidente do Hospital São Julião, Carlos Melke, o álbum registra não apenas as mudanças na assistência médica, mas também o trabalho das pessoas que participaram dessa transformação.

“O conteúdo deste álbum histórico mostra o fruto da vocação missionária de Irmã Silvia Vecellio, a tenacidade com que ela e seus fiéis aliados lutaram por essa obra, a revolução que esse trabalho operou, inicialmente com o tratamento da hanseníase e hoje, com a assistência médica em geral. E, o mais importante, sem perder o espírito humanitário que sempre fez parte dessa trajetória”, destaca.

Livro está à venda no Shopping Campo Grande

O álbum histórico dos 85 anos do Hospital São Julião está à venda na Livraria Leitura, no Shopping Campo Grande. A renda obtida com a comercialização será revertida à instituição.

A publicação tem pesquisa e redação de Lenilde Ramos, integrante da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras; projeto gráfico de Marília Leite, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul; tratamento de imagens e fechamento de arquivos de Lennon Godoy; e apoio à pesquisa de Roberto Pellizzer, historiador responsável pelo Setor de Memória do hospital.