Mato Grosso do Sul completa 49 anos neste domingo, 11 de
outubro, com uma trajetória marcada pela transformação de sua economia e pela
consolidação como uma das principais potências do agronegócio brasileiro.
Criado em 1977, o Estado construiu sua identidade econômica sobre a pecuária e
a agricultura, atividades que continuam desempenhando papel central no
desenvolvimento regional, mas que passaram a dividir espaço com cadeias
industriais de grande escala, especialmente nos segmentos de celulose e
bioenergia.
A dimensão dessa transformação aparece nos números mais
recentes. Na safra 2025/2026, Mato Grosso do Sul colheu 16,74 milhões de
toneladas de soja, crescimento de 19,1% em relação ao ciclo anterior. A
produção estimada de milho segunda safra chegou a 16,25 milhões de toneladas,
avanço de 16,7%. Juntas, as duas culturas representam aproximadamente 33
milhões de toneladas de grãos, considerando o resultado consolidado da soja e a
estimativa do milho.
Além da força agrícola, o Estado possui o quinto maior
rebanho bovino do Brasil, ocupa a quarta posição nacional na produção de carne
bovina e tornou-se o segundo maior produtor brasileiro de etanol de milho. Na
indústria de celulose, novos empreendimentos poderão mais que dobrar a
capacidade produtiva instalada, ampliando a participação sul-mato-grossense no
mercado internacional.
O crescimento também abre espaço para novas atividades, como
a citricultura, que avança com a implantação de pomares e investimentos em
regiões tradicionalmente ocupadas por outras culturas. Ao mesmo tempo, a
localização estratégica do Estado, na fronteira com Paraguai e Bolívia, coloca
a logística e a integração comercial no centro das discussões sobre os próximos
anos.
Pecuária coloca MS entre os maiores produtores do Brasil
A pecuária bovina está diretamente ligada à formação
econômica de Mato Grosso do Sul. A disponibilidade de pastagens naturais,
seguida pela expansão das áreas cultivadas e pela incorporação de tecnologias
aos sistemas produtivos, permitiu que a atividade ganhasse escala e eficiência.
Em 2025, o Estado registrou o quinto maior rebanho bovino do
país, com aproximadamente 17,9 milhões de cabeças. Também ocupou a quinta
posição nacional em abates, com 3,93 milhões de animais, e a quarta colocação
na produção de carne bovina, com 1,05 milhão de toneladas.
No comércio exterior, Mato Grosso do Sul alcançou a quarta
posição brasileira nas exportações de produtos bovinos, com receita de
aproximadamente US$ 1,98 bilhão em 2025.
A expansão da presença internacional é outro indicador da
transformação do setor. Entre 2015 e 2025, a receita das exportações
sul-mato-grossenses de produtos bovinos passou de US$ 489,4 milhões para US$
1,977 bilhão, crescimento nominal de aproximadamente 304%.
Nesse período, também houve uma mudança significativa nos
mercados compradores. Em 2015, Hong Kong liderava as aquisições, seguido por
Rússia, Chile, Egito e Venezuela. Dez anos depois, a China passou a ocupar a
primeira posição, respondendo por 39,71% da receita das exportações estaduais
de produtos bovinos.
O desempenho mostra como uma atividade tradicional da
economia sul-mato-grossense ampliou sua conexão com o comércio internacional,
ao mesmo tempo em que passou a depender cada vez mais de infraestrutura
logística, exigências sanitárias e competitividade nos mercados externos.
Soja e milho somam quase 33 milhões de toneladas
A produção de grãos é outro componente fundamental da
transformação econômica de Mato Grosso do Sul. Na safra 2025/2026, o Estado
alcançou 16,744 milhões de toneladas de soja, crescimento de 19,1% em relação
ao ciclo anterior, quando foram colhidas 14,060 milhões de toneladas. Os
números são do levantamento consolidado da Associação dos Produtores de Soja de
Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), realizado em parceria com o Sistema Famasul e
a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação
(Semadesc).
O avanço ocorreu tanto pela ampliação da área cultivada
quanto pelos ganhos de produtividade. As lavouras de soja ocuparam 4,620
milhões de hectares, expansão de 2,1% em relação à temporada anterior. Já a
produtividade média passou de 51,79 para 60,40 sacas por hectare, aumento de
16,6%.
O resultado representa um acréscimo de aproximadamente 2,68
milhões de toneladas de soja em apenas uma safra, mesmo diante de períodos de
estiagem e temperaturas elevadas que afetaram parte das lavouras, especialmente
na região sul do Estado.
A força da produção está distribuída por diferentes municípios.
Ponta Porã liderou o ranking estadual, com mais de 1,46 milhão de toneladas,
seguida por Maracaju, com 1,28 milhão, e Sidrolândia, com aproximadamente 963,6
mil toneladas. Na produtividade, o destaque foi Alcinópolis, que alcançou média
de 81,85 sacas por hectare.
O desempenho mais recente também ajuda a dimensionar a
evolução da agricultura estadual. Entre as safras 2012/2013 e 2025/2026, a
produção de soja de Mato Grosso do Sul aumentou aproximadamente 176,9%,
enquanto a área cultivada cresceu 120% e a produtividade avançou 25,8%, segundo
a série histórica da Aprosoja/MS.
Os números indicam que a expansão da cultura não ocorreu
apenas pelo aumento da superfície plantada, mas também pela maior eficiência
produtiva. O crescimento da produtividade reflete um processo de modernização
que envolve melhoramento genético, mecanização, manejo do solo e incorporação
de tecnologias.
O milho também apresentou desempenho expressivo. Segundo
atualização da Aprosoja/MS divulgada em 6 de outubro, a colheita da segunda
safra 2025/2026 havia alcançado 99,96% da área acompanhada no Estado. Com a
revisão dos resultados de campo, a produção foi estimada em 16,253 milhões de
toneladas, com produtividade média de 122,79 sacas por hectare.
A estimativa representa crescimento de 16,7% na produção em
relação à segunda safra anterior, enquanto a produtividade projetada supera em
13,3% o resultado do ciclo 2024/2025. A área cultivada foi estimada em 2,206
milhões de hectares, expansão de aproximadamente 3%.
Os resultados colocam Mato Grosso do Sul entre os estados de
maior relevância na produção brasileira de grãos. A importância da agricultura
estadual vai além do volume colhido: soja e milho abastecem cadeias de
alimentação animal, movimentam o transporte de cargas, impulsionam as
exportações e sustentam investimentos agroindustriais.
No caso do milho, essa integração tornou-se ainda mais
evidente com o avanço das usinas de etanol. O cereal, tradicionalmente
destinado à comercialização como grão ou à fabricação de rações, passou a
abastecer uma indústria de biocombustíveis que cresce rapidamente no Estado.
A combinação entre produção agrícola, pecuária e
agroindústria demonstra como Mato Grosso do Sul vem ampliando sua capacidade de
agregar valor à produção rural, fortalecendo sua participação na economia
nacional.
Etanol de milho triplica e impulsiona a bioenergia
Se a pecuária e a produção de grãos representam bases
históricas da economia estadual, a bioenergia demonstra a capacidade de Mato
Grosso do Sul de agregar valor à produção agrícola. O avanço mais expressivo
dos últimos anos ocorreu no etanol de milho, cuja fabricação praticamente
triplicou em apenas quatro safras.
Segundo dados da Associação dos Produtores de Bioenergia de
Mato Grosso do Sul (Biosul), a produção passou de 721,3 milhões de litros, na
safra 2022/2023, para 2,2 bilhões de litros em 2025/2026. O crescimento foi de
aproximadamente 205%, colocando o Estado na segunda posição nacional, atrás
apenas de Mato Grosso.
O avanço foi impulsionado por unidades industriais
instaladas em Dourados, Sidrolândia e Maracaju, que transformam parte da
produção regional de milho em combustível.
O etanol de milho respondeu por 44% de todo o biocombustível
produzido em Mato Grosso do Sul na última safra. Considerando também a
fabricação a partir da cana-de-açúcar, o Estado atingiu o recorde de 5 bilhões
de litros, crescimento de 16,2% em relação ao ciclo anterior.
Esse desempenho coloca Mato Grosso do Sul como o quarto
maior produtor brasileiro de etanol, considerando as duas matérias-primas.
A cana-de-açúcar também mantém participação expressiva na
economia estadual. Na safra 2025/2026, foram processadas 52 milhões de
toneladas, aumento de 7,7%. A produção de açúcar alcançou 2,1 milhões de
toneladas, garantindo ao Estado a quinta posição nacional.
Atualmente, o parque bioenergético reúne 22 unidades
industriais, sendo 19 ligadas à cana-de-açúcar e três ao etanol de milho.
Segundo a Biosul, o segmento sucroenergético está presente em 42 municípios e
gera 34,5 mil empregos diretos e indiretos, com massa salarial de R$ 1,4
bilhão.
A expansão da bioenergia também representa uma mudança na
estrutura produtiva estadual: além de fornecer matéria-prima, o campo passa a
sustentar uma cadeia industrial que produz combustíveis, açúcar e outros
produtos, ampliando a geração de renda e a circulação de investimentos.
Celulose transforma o mapa industrial de Mato Grosso do Sul
Outro símbolo da transformação econômica de Mato Grosso do
Sul é a indústria de celulose. Em pouco mais de uma década, o Estado consolidou
um polo industrial de escala internacional, com fábricas em operação, expansão
da base florestal e novos investimentos previstos.
Entre 2020 e 2026, a área cultivada com eucalipto passou de
aproximadamente 1,1 milhão para 1,9 milhão de hectares, crescimento de 80,6%. A
expansão equivale a quase 887 mil hectares adicionais em seis anos.
Atualmente, as florestas plantadas de eucalipto ocupam cerca
de 5,6% do território estadual. A área ainda é inferior à destinada à soja, que
ultrapassou 4,6 milhões de hectares na safra 2025/2026, e às pastagens, que
somam aproximadamente 16,49 milhões de hectares.
O avanço da base florestal acompanha a instalação de grandes
unidades industriais. Mato Grosso do Sul possui quatro linhas de produção de
celulose, distribuídas entre as operações da Suzano, em Três Lagoas e Ribas do
Rio Pardo, e da Eldorado Brasil, também em Três Lagoas.
A capacidade instalada chega a 7,58 milhões de toneladas
anuais. Com a concretização dos novos empreendimentos, incluindo projetos da
Arauco, em Inocência, e da Bracell, em Bataguassu, a capacidade poderá alcançar
16,6 milhões de toneladas por ano.
O peso econômico dessa cadeia já aparece nas exportações. Em
2025, Mato Grosso do Sul comercializou 5,8 milhões de toneladas de celulose no
mercado internacional. O produto respondeu por 29,32% das exportações
estaduais, liderando a pauta de comércio exterior.
A industrialização da madeira também provoca mudanças nos
municípios que recebem os empreendimentos, com aumento da demanda por mão de
obra, qualificação profissional, transporte, moradia e serviços públicos.
A consolidação do chamado Vale da Celulose representa,
portanto, mais do que o crescimento de uma atividade agrícola. Trata-se de uma
mudança na estrutura econômica de Mato Grosso do Sul, que amplia a
transformação industrial de matérias-primas produzidas dentro de seu
território.
Citricultura abre uma nova fronteira agrícola
Enquanto setores tradicionais ampliam sua produção, Mato
Grosso do Sul começa a desenvolver novas cadeias agrícolas. Uma das apostas é a
citricultura, que ganhou impulso a partir de 2024, com políticas de incentivo,
medidas de controle fitossanitário e atração de empreendimentos.
O Estado já reúne mais de 15 mil hectares de pomares e
aproximadamente 7 milhões de mudas implantadas. A perspectiva apresentada pelo
setor é de expansão de mais de 40 mil hectares em novos projetos nos próximos
anos.
Para apoiar o desenvolvimento da atividade, o governo
estadual criou mecanismos de financiamento e medidas de prevenção ao greening,
uma das principais doenças que ameaçam a produção de citros.
A Lei Estadual nº 6.293/2024 estabeleceu regras de controle
fitossanitário, incluindo restrições ao cultivo de murta, planta que pode
hospedar o inseto transmissor da doença. Municípios como Ribas do Rio Pardo e
Campo Grande também aprovaram legislações específicas.
Na área de financiamento, uma linha do Fundo Constitucional
de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) prevê até R$ 20 milhões anuais para
implantação e manutenção de pomares, com limite de 500 hectares por projeto.
A chegada da citricultura amplia as possibilidades de
diversificação da agricultura estadual e pode estimular novas atividades
industriais ligadas ao processamento de frutas, embora a consolidação da cadeia
dependa da implantação dos projetos, da sanidade dos pomares e de condições de
mercado.
Rota Bioceânica pode abrir novos caminhos para a produção
A posição geográfica de Mato Grosso do Sul, que
historicamente representou um desafio logístico para o escoamento da produção,
também pode se transformar em uma vantagem competitiva nos próximos anos.
Localizado no interior do continente, o Estado depende de
longos deslocamentos rodoviários para alcançar os portos brasileiros. No caso
da carne bovina, os terminais de Paranaguá, Santos e São Francisco do Sul
concentraram 94,63% do volume exportado por via marítima em 2025.
A implantação do Corredor Bioceânico, que conecta Brasil,
Paraguai, Argentina e Chile, surge como uma alternativa para ampliar as
possibilidades de acesso aos mercados asiáticos.
Estudo sobre o transporte de carne bovina entre Campo Grande
e Xangai aponta que o percurso pela rota tradicional via Santos alcança
aproximadamente 25,2 mil quilômetros, enquanto a alternativa pelo Porto de
Antofagasta, no Chile, totaliza cerca de 20,9 mil quilômetros.
Na comparação apresentada, o custo estimado de transporte
cai de US$ 342,44 para US$ 299,20 por tonelada, redução de 12,63%. Os números
representam estimativas de cenários logísticos, e não custos efetivamente
observados em operações comerciais.
A perspectiva de novas conexões internacionais ganha
relevância em um momento em que a China já ocupa posição central nas
exportações sul-mato-grossenses de carne bovina e outros produtos do
agronegócio.
Desafio é transformar crescimento em desenvolvimento
A trajetória de Mato Grosso do Sul desde sua criação, em 11
de outubro de 1977, revela uma economia que passou por profundas
transformações. A pecuária, atividade que ajudou a estruturar a ocupação
produtiva do território, permanece entre as mais importantes do país. Ao seu
lado, a agricultura de grãos, a bioenergia e a indústria de celulose ampliaram
a diversidade econômica estadual.
Os indicadores mostram a dimensão dessa transformação: quase
18 milhões de bovinos, aproximadamente 33 milhões de toneladas de soja e milho
na safra 2025/2026, 5 bilhões de litros de etanol produzidos em uma safra, 5,8
milhões de toneladas de celulose exportadas em um ano e novos empreendimentos
industriais capazes de ampliar significativamente a capacidade produtiva.
Mas a consolidação desse protagonismo também traz desafios.
A expansão das atividades exige investimentos em infraestrutura, logística,
formação profissional, serviços públicos e sustentabilidade ambiental. O
crescimento industrial e agrícola precisa ser acompanhado por ganhos de
produtividade e pela capacidade de distribuir seus benefícios entre as
diferentes regiões do Estado.
Ao completar 49 anos, Mato Grosso do Sul chega à reta final
de sua quinta década com uma economia cada vez mais conectada aos mercados
internacionais. O Estado que construiu sua força sobre a produção agropecuária
amplia agora sua presença na indústria, na energia e no comércio exterior.
Mais do que produzir em grande escala, o desafio para os
próximos anos será transformar essa capacidade produtiva em desenvolvimento
econômico duradouro, geração de oportunidades e melhoria das condições de vida
da população.

