10/07/2026 17:52

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Debate sobre Hidrovia do Paraguai une defesa da navegação e cautela ambiental

Seminário da Marinha reúne setor produtivo, especialistas e ambientalistas para discutir o futuro do corredor logístico

Anderson Viegas

Seminário debateu a Hidrovia do Paraguai (Foto: Anderson Viegas/Made in MS)

A necessidade de ampliar a capacidade logística da Hidrovia do Paraguai, sem comprometer a dinâmica ambiental do Pantanal, marcou os debates do seminário “Horizontes da Economia Azul – O Papel das Hidrovias, do Turismo e da Formação Profissional no Desenvolvimento Sustentável em Mato Grosso do Sul”, promovido pelo Comando do 6º Distrito Naval da Marinha, no Bioparque Pantanal, em Campo Grande, nesta sexta-feira (10).

O encontro reuniu representantes da iniciativa privada, do setor hidroviário, da academia e de instituições ambientais para discutir os desafios da navegação, da conservação e do desenvolvimento econômico.

Um dos principais pontos de convergência entre os participantes foi a importância estratégica da Hidrovia Paraguai-Paraná para a competitividade de Mato Grosso do Sul e do Brasil. Ao mesmo tempo, as discussões evidenciaram que a ampliação da infraestrutura precisa ocorrer com planejamento, cooperação entre os países da bacia e respaldo técnico.

O presidente do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), Ângelo Rabelo, defendeu que a dragagem de manutenção é necessária para garantir a navegabilidade, mas alertou que intervenções voltadas ao aprofundamento do canal exigem estudos mais aprofundados, diante da sensibilidade ambiental do Pantanal.

“A dragagem de manutenção é necessária. Já a dragagem de aprofundamento precisa ser analisada de maneira muito cuidadosa, porque pode haver uma relação de causa e efeito com o regime de inundações. Estamos falando de um bioma extremamente sensível, que já enfrenta uma das maiores crises hídricas de sua história. Não podemos avançar sem critérios muito mais rigorosos e sem estudos adicionais.”

Segundo Rabelo, a hidrovia não pode ser analisada apenas sob a ótica da logística. Para ele, trata-se de um sistema que integra cinco países e cuja gestão precisa considerar o comportamento hidrológico do rio, a conservação do Pantanal e a manutenção da atividade econômica.

O ambientalista afirmou ainda que a falta de manutenção dos canais ao longo das últimas décadas já provoca impactos na navegação.”Nos últimos 30 anos, quase nada foi feito para a manutenção da hidrovia. O turismo já enfrenta restrições, e aumentam os acidentes com embarcações atingindo bancos de areia.”

Logística depende de governança

Representando a Hidrovias do Brasil, o gerente regulatório Renato Hugo Reis Borges afirmou que a Hidrovia Paraguai-Paraná vai além de um rio navegável e constitui um corredor logístico internacional responsável por integrar cinco países e aumentar a competitividade brasileira.

Segundo ele, a navegação depende de uma estrutura complexa, que envolve infraestrutura, mão de obra qualificada, segurança da navegação, coordenação entre órgãos públicos e integração internacional.

O executivo destacou que a dragagem de manutenção nos chamados passos críticos é essencial para garantir a navegação durante os períodos de estiagem, mas depende de políticas públicas, licenciamento ambiental e coordenação entre diferentes instituições.

Também defendeu avanços regulatórios para reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência da hidrovia. Entre os exemplos citados estão a simplificação de procedimentos aduaneiros, a atualização de normas para formação de comboios e maior integração entre Brasil, Paraguai e Argentina. Ele lembrou ainda que um único supercomboio pode transportar carga equivalente a aproximadamente 1.750 caminhões, com menor consumo de combustível e menores emissões de gases de efeito estufa.

Expansão da mineração aumenta demanda logística

Durante o mesmo painel, o diretor-geral de Navegação da LHG Mining, Iclair Macarello, apresentou o plano de expansão da companhia, que pretende elevar em 1.150% a produção de minério em Corumbá até 2029, passando de 2 milhões para 25 milhões de toneladas anuais.

Segundo ele, o crescimento da produção vem acompanhado de investimentos em equipamentos de mineração, ampliação da frota hidroviária e melhorias na estrutura portuária para garantir o escoamento da produção pela Hidrovia do Paraguai. Atualmente, a empresa já movimenta cerca de 12 milhões de toneladas por ano pelo corredor logístico e projeta ampliar sua frota para 49 rebocadores e aproximadamente 700 embarcações até 2028.

Macarello também apontou que um dos maiores desafios da expansão é a formação de mão de obra especializada para operar na hidrovia, destacando que a preparação de comandantes e chefes de máquinas demanda anos de experiência.

Debate deve reunir todos os setores

Na abertura do seminário, o comandante do 6º Distrito Naval, contra-almirante Emerson Augusto Serafim, afirmou que o futuro da Hidrovia Paraguai-Paraná depende de uma construção coletiva, envolvendo poder público, empresas, academia, usuários e instituições ambientais.

“O rio Paraguai-Paraná não pode ser discutido apenas por um ou dois atores. Pela multidisciplinaridade das atividades desenvolvidas ao longo da hidrovia, é fundamental reunir empresas, governo, academia e sociedade para identificar problemas, potencialidades e construir soluções.”

Segundo Serafim, discutir a hidrovia significa dar continuidade à missão histórica da Marinha na região Centro-Oeste, conciliando segurança da navegação, desenvolvimento econômico e sustentabilidade.

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