04/08/2026 21:08

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Da cozinha de casa, casal leva kombucha de butiá às prateleiras de MS

Após superar entraves regulatórios, marca de Bonito aposta em frutos nativos e chega a 21 pontos de venda.

Da Redação

Mirian Lúcia Queiroz e Ronaldo Caires transformaram a produção caseira de kombucha em um negócio com identidade regional (Foto: Sebrae/MS/Divulgação).

O que começou com algumas xícaras de kombucha compartilhadas por uma amiga transformou-se em um negócio que leva sabores e elementos da biodiversidade de Mato Grosso do Sul às prateleiras. Em Bonito, o casal Mirian Lúcia Queiroz e Ronaldo Caires prepara o lançamento de uma kombucha artesanal produzida com butiá.

A bebida desenvolvida pela Guavira Alimentos já possui receita padronizada, rotulagem adequada e registro no Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). O primeiro ponto de venda será o Santos Supermercado, em Bonito.

A novidade marca a retomada de um empreendimento que precisou reduzir praticamente toda a produção durante um ano e meio por dificuldades de regularização. Atualmente, a marca está presente em 21 estabelecimentos de Bonito, Campo Grande e outros municípios sul-mato-grossenses.

A história começou sem pretensão comercial. Mirian conheceu a kombucha na casa de uma amiga e levou a experiência para Ronaldo, que já trabalhava na cozinha e se interessou pelo processo de fermentação.

O casal recebeu uma cultura conhecida como “scoby” e iniciou a produção em casa, utilizando recipientes de vidro reaproveitados. Os primeiros lotes eram destinados ao consumo próprio, enquanto Ronaldo experimentava combinações com frutas, ervas e especiarias.

“Começamos fazendo apenas para o nosso consumo, sem imaginar que aquilo poderia se tornar um negócio. Como o Ronaldo já trabalhava com cozinha, ele se interessou pela receita e passou a estudar para melhorar o produto”, conta Mirian.

Garrafas estouraram durante os primeiros testes

As experiências iniciais nem sempre apresentavam o resultado esperado. Algumas bebidas tinham pouca gaseificação, enquanto outras acumulavam resíduos ou desenvolviam pressão excessiva.

Em uma das tentativas com guavira, o casal acordou durante a madrugada com o barulho das garrafas estourando no espaço de produção. O episódio mostrou a complexidade de trabalhar com bebidas fermentadas e levou Ronaldo a buscar qualificação.

Ele participou de cursos sobre fermentação, padronização, produção artesanal e fabricação em maior escala. Depois de meses de testes, conseguiu controlar melhor fatores como acidez, filtragem, pressão e tempo de fermentação.

“Eu olhava para as kombuchas disponíveis no mercado e queria entender por que as nossas ainda apresentavam resíduos, diferenças de acidez ou pressão excessiva. A partir dos cursos, comecei a compreender melhor a fermentação e a padronizar cada etapa”, relata.

O incentivo de amigos e familiares levou o casal a transformar a produção doméstica em negócio. A primeira caixa foi enviada para Campo Grande e teve boa aceitação.

Mesmo sem equipamentos automatizados para o envase e fechamento das garrafas, a produção chegou a aproximadamente 900 unidades mensais. As bebidas passaram a ser vendidas também em Sidrolândia e Maracaju.

Guavira inspirou marca e identidade regional

Desde o início, os empreendedores buscavam um diferencial relacionado a Mato Grosso do Sul. A guavira foi escolhida como primeiro fruto regional por fazer parte das memórias de infância de Ronaldo e já ser utilizada por ele na gastronomia.

O desenvolvimento da receita levou cerca de um ano e meio. O casal precisou ajustar a quantidade de polpa, a filtragem e o tempo de fermentação até conseguir uma bebida estável.

“Nosso diferencial é trabalhar com a valorização dos frutos do Cerrado e do Pantanal. Por trás deles também estão os coletores e as famílias que vivem dessa atividade. Quando compramos a produção dessas pessoas, não valorizamos somente o fruto, mas uma cadeia inteira ligada ao território”, explica Ronaldo.

A escolha também deu origem ao nome “Kombucha Guavira”. Posteriormente, a marca comercial passou a ser Guavira Alimentos, permitindo a criação futura de outros produtos além das bebidas fermentadas.

A identidade regional aparece ainda nos rótulos, inspirados no grafismo do povo indígena Kadiwéu.

Entrave retirou principal produto do mercado

Apesar da aceitação dos consumidores, a kombucha de guavira precisou ser retirada de circulação porque o fruto não constava na lista de vegetais autorizados pela legislação para esse tipo de bebida.

A restrição interrompeu a regularização da fábrica e levou o casal a suspender quase toda a produção por aproximadamente um ano e meio. Apenas pequenos lotes foram mantidos para preservar as culturas utilizadas na fermentação.

“Foi um balde de água fria. A guavira era o nosso carro-chefe e tínhamos investido tudo o que podíamos na estrutura”, lembra Mirian.

Com apoio técnico, a empresa passou a trabalhar com sabores autorizados, como maracujá com gengibre, hibisco com especiarias e a versão original.

Sem abandonar a proposta de valorizar a biodiversidade regional, Ronaldo encontrou no butiá uma alternativa permitida pela legislação. Foram necessários cerca de quatro meses de testes para chegar à nova receita.

“Muitas pessoas experimentam e dizem que o sabor remete à infância. Primeiro aparece a acidez, depois vem um dulçor do coco e, ao final, uma nota cítrica. É um fruto exótico e peculiar”, descreve.

Com o lançamento, o casal pretende ampliar a rede de fornecedores e incentivar coletores que já trabalham com a guavira a comercializarem também o butiá durante a safra.

Apoio técnico ajudou na regularização

A Guavira Alimentos recebeu consultorias e capacitações do Sebrae/MS para o registro dos produtos, adequação dos rótulos e organização do processo produtivo. Parte do suporte foi desenvolvida em parceria com o Senac.

A empresa também participou do Inova Cerrado, programa destinado a pequenos negócios que desenvolvem soluções relacionadas à biodiversidade do bioma.

“O Inova Cerrado foi um divisor de águas. Além de ampliar a produção, passamos a entender melhor a linguagem do mercado, as relações entre empresas, a comunicação e a estrutura necessária para crescer”, avalia Mirian.

Para a empreendedora, ver a nova kombucha pronta para chegar ao mercado representa a superação de um período de frustrações, investimentos e persistência.

“É uma mistura de realização, pertencimento e merecimento. Ver um produto com a nossa identidade, feito com um fruto do Cerrado e totalmente regularizado, é a concretização de algo que começou dentro da nossa casa”, afirma.

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