09/07/2026 18:04

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Super El Niño pode testar agro de MS e elevar riscos para a safra 2026/27

Planejamento, gestão e monitoramento climático ganham peso diante de cenário de maior volatilidade.

Da Redação

Alguns modelos climáticos já simulam anomalias da temperatura da superfície do mar superiores a +4°C (Foto: NOOA/Divulgação)

As projeções dos principais centros internacionais de monitoramento climático indicam que o El Niño poderá ganhar força ao longo do segundo semestre de 2026 e, se os cenários mais intensos forem confirmados, provocar impactos relevantes sobre a agropecuária, a logística e diferentes setores da economia de Mato Grosso do Sul. Embora a intensidade final do fenômeno ainda dependa da evolução das condições oceânicas e atmosféricas nos próximos meses, especialistas alertam que o momento já exige planejamento por parte de produtores, empresas e gestores públicos.

Segundo pesquisadores do Laboratório de Ciências Atmosféricas (LCA) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), alguns modelos climáticos já simulam anomalias da temperatura da superfície do mar superiores a +4°C na região Niño 3.4 até o fim do ano, patamar que colocaria o evento entre os mais intensos da série histórica. Ainda assim, os cientistas destacam que a confirmação de um “Super El Niño” dependerá do monitoramento contínuo nos próximos meses.

A avaliação é compatível com a atualização mais recente da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que confirmou o estabelecimento das condições de El Niño e prevê fortalecimento do fenômeno durante o inverno do Hemisfério Norte de 2026/27, embora sem cravar sua intensidade máxima.

Distribuição das chuvas preocupa mais que o volume

Para Mato Grosso do Sul, os efeitos tendem a variar conforme a região do Estado. Historicamente, episódios de El Niño favorecem maior atuação de frentes frias e sistemas de baixa pressão sobre o centro-sul da América do Sul. Como consequência, o sul de Mato Grosso do Sul costuma registrar chuvas acima da média, enquanto as regiões norte e oeste podem apresentar comportamento mais variável, influenciado pela interação com outros sistemas atmosféricos.

Na avaliação do pesquisador Thiago Rangel Rodrigues, do LCA da UFMS, o maior desafio para a agropecuária não é necessariamente a quantidade total de chuva, mas sua distribuição ao longo do ciclo produtivo.

Períodos secos durante fases críticas do desenvolvimento das lavouras ou excesso de precipitação durante o plantio e a colheita podem comprometer significativamente a produtividade. Soja, milho, algodão, feijão e cana-de-açúcar estão entre as culturas mais suscetíveis às oscilações climáticas, enquanto a pecuária também pode sofrer com alterações na disponibilidade de pastagens, redução da qualidade das forrageiras, estresse térmico dos animais e aumento da ocorrência de doenças favorecidas por temperaturas elevadas e maior umidade.

Os impactos não se restringem às propriedades rurais. Quebras de safra podem afetar armazenagem, transporte, exportações e abastecimento do mercado interno, além de pressionar os preços dos alimentos. Chuvas intensas também elevam os custos de manutenção das rodovias e podem dificultar o escoamento da produção agrícola.

Gestão passa a ser diferencial competitivo

Na avaliação da consultoria Falconi, o retorno do El Niño amplia a incerteza para a safra 2026/27, mas o principal fator para reduzir riscos está na capacidade de adaptação das operações. A empresa destaca que o agronegócio brasileiro dispõe hoje de mais tecnologia, melhoramento genético e ferramentas de gestão do que em eventos anteriores, permitindo respostas mais eficientes aos extremos climáticos.

Segundo o vice-presidente da unidade de Agronegócio da Falconi, André Paranhos, planejamento estratégico, eficiência operacional e gestão de custos passam a ser diferenciais competitivos em um ambiente de maior volatilidade climática. A consultoria alerta ainda que atrasos na regularização das chuvas podem provocar replantio, comprometer o desenvolvimento inicial da soja e reduzir a janela ideal para o milho de segunda safra, afetando produtividade e rentabilidade.

Outro ponto de atenção é a logística nacional. Um cenário mais seco na região Norte pode comprometer a navegabilidade de rios utilizados para o transporte de grãos, elevando custos logísticos e aumentando a pressão sobre toda a cadeia de abastecimento.

Além do agronegócio, a UFMS ressalta que um episódio intenso de El Niño também pode produzir reflexos sobre os recursos hídricos, a geração de energia, o turismo, especialmente no Pantanal, e a saúde pública. Temperaturas mais elevadas e períodos mais úmidos favorecem a proliferação do Aedes aegypti, enquanto eventos extremos podem ampliar riscos relacionados à qualidade da água e às doenças respiratórias associadas às queimadas.

Para os pesquisadores, a principal vantagem em relação a outros desastres naturais é que o El Niño pode ser acompanhado com meses de antecedência. Isso permite que produtores rurais ajustem épocas de plantio, escolham cultivares mais adaptadas, reforcem o manejo do solo, utilizem ferramentas de monitoramento climático e adotem estratégias para reduzir perdas caso as previsões de fortalecimento do fenômeno se confirmem.

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