08/06/2026 06:30

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Lixo Zero, Vida 100% Renovada: a transformação dos resíduos em preservação ambiental em Bonito

Cidade que recebe mais de 300 mil turistas por ano aposta em reciclagem, compostagem e economia circular para reduzir impactos do crescimento do turismo.

Anderson Viegas

Lívia Cordeiro, diretora da startup Ciclo Azul, coletando biofertilizante produzido em leira de compostagem (Foto: Anderson Viegas)

Bonito, eleito recentemente pela 19ª vez o melhor destino de ecoturismo do Brasil, enfrenta um desafio que cresce na mesma proporção do turismo: o destino dos resíduos gerados por moradores, empresas e visitantes. Com pouco mais de 24 mil habitantes, o município recebe oficialmente mais de 300 mil turistas por ano e produz entre 30 e 40 toneladas diárias de resíduos, volume que precisa ser transportado até o aterro sanitário de Jardim, cidade vizinha.

A dimensão do problema ajuda a explicar por que a gestão dos resíduos passou a ocupar espaço estratégico nas políticas públicas e nas empresas ligadas ao turismo. Sem aterro sanitário próprio, Bonito transporta diariamente todo o lixo coletado para Jardim, percorrendo mais de 300 quilômetros por dia apenas nessa operação.

Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Thyago Sabino, a realidade de Bonito é diferente da maioria dos municípios brasileiros porque a população efetivamente presente na cidade é muito maior do que a registrada pelo censo.

“Temos 24 mil habitantes e recebemos mais de 300 mil visitantes por ano. Quando a gente transfere isso para resíduos sólidos, a cidade tem uma geração extremamente maior do que se fosse apenas a população residente”, afirma.

De acordo com ele, ao final de cada mês são quase mil toneladas de resíduos encaminhadas ao aterro. O custo envolve coleta, transporte e pagamento pela destinação final. Diante desse cenário, a prefeitura passou a estimular a adoção de políticas de Lixo Zero em empresas, atrativos turísticos e também em estruturas públicas.

A proposta já começou a ser implantada em espaços administrados pelo município, como a Gruta do Lago Azul e o Balneário Municipal, com a perspectiva de ampliar gradualmente a iniciativa para toda a administração pública.

A transformação ganhou força a partir do trabalho desenvolvido pela bióloga Lívia Cordeiro, diretora da startup Ciclo Azul.

Pesquisadora dos ecossistemas subterrâneos de Bonito, Lívia começou a perceber durante estudos em cavernas e rios subterrâneos que resíduos descartados na superfície já estavam chegando a ambientes extremamente sensíveis do ponto de vista ambiental.

“Esses ambientes já estavam sendo contaminados por resíduos plásticos e outros materiais descartados indevidamente. Como Bonito está sobre um sistema de cavernas e rios subterrâneos, esse lixo acaba chegando também às águas subterrâneas”, relata.

A inquietação levou à criação da Ciclo Azul em 2020, durante o programa Centelha, da Fundect e Finep. O projeto começou de forma simples, com a distribuição de pequenos recipientes para coleta de resíduos orgânicos entre vizinhos durante a pandemia.

Hoje, a startup atende cerca de 30 empresas e desenvolveu um sistema de rastreabilidade que acompanha a coleta, pesagem e destinação dos resíduos. Os clientes recebem relatórios que mostram indicadores ambientais como redução das emissões de gases de efeito estufa, quilometragem evitada no transporte e impacto equivalente em árvores preservadas.

Atualmente, a empresa retira aproximadamente 50 toneladas de resíduos dos aterros todos os meses. Desse total, cerca de 30 toneladas são resíduos orgânicos destinados à compostagem e outras 20 toneladas correspondem a materiais recicláveis encaminhados à cadeia de reciclagem do município.

Os resíduos orgânicos coletados em hotéis, restaurantes, pousadas e empresas seguem para um pátio de compostagem instalado no viveiro municipal. Ali passam por um processo biológico controlado que resulta na produção de composto orgânico e biofertilizante utilizados em projetos de arborização urbana, recuperação ambiental, jardins e hortas.

Além dos benefícios ambientais, a iniciativa também apresenta potencial econômico. Segundo estudo elaborado pela própria startup com base na metodologia do Instituto Lixo Zero Brasil, uma implantação mais ampla da política poderia gerar economia próxima de R$ 3 milhões por ano para Bonito, além da criação de 200 a 300 empregos ligados à economia circular.

A adesão ao conceito já alcança parte importante do setor turístico.

No Hotel Paraíso das Águas, a sustentabilidade deixou de ser uma ação isolada para se tornar parte da rotina operacional. A empresária Silvia Schmidt conta que a mudança começou após a pandemia, quando o empreendimento buscava formas de se diferenciar em um mercado cada vez mais competitivo.

O hotel reorganizou completamente seus processos internos. Hoje, os resíduos são separados desde os apartamentos até as áreas de serviço. Materiais recicláveis seguem para reciclagem e os orgânicos são encaminhados para compostagem.

Segundo Silvia, apenas resíduos sanitários ainda seguem para aterro. Todo o restante recebe destinação adequada e monitorada.

O empreendimento foi o primeiro hotel de Mato Grosso do Sul a buscar certificação Lixo Zero e caminha para conquistar a terceira certificação consecutiva. A empresária afirma que a iniciativa passou a influenciar diretamente a decisão de hóspedes que procuram estabelecimentos alinhados às práticas de sustentabilidade.

Outro exemplo está no Estrela do Formoso. Proprietário do atrativo e presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), Lucas Ferreira afirma que 94% dos resíduos sólidos gerados pelo empreendimento recebem destinação correta.

Além da gestão dos resíduos, o local implantou sistemas próprios de tratamento das chamadas águas cinzas e águas escuras, permitindo o reaproveitamento integral da água utilizada nas operações.

O sistema possibilita reutilizar mais de um milhão de litros de água por ano na irrigação das áreas verdes do atrativo.

Lucas destaca que o empreendimento também possui geração própria de energia solar, participa de programas de conservação ambiental e recebeu certificações e premiações ligadas à sustentabilidade, incluindo o Prêmio Braztoa, considerado uma das principais referências do turismo sustentável brasileiro.

No Zagaia Eco Resort, a sustentabilidade foi incorporada em larga escala. O empreendimento recebe até 35 mil hóspedes por mês durante os períodos de maior movimento.

Segundo a gerente-geral Ana Rossi, a estratégia envolve desde compras conscientes e seleção de fornecedores até o uso de produtos biodegradáveis, sistemas de separação de resíduos, geração de energia solar e tratamento integral dos efluentes.

O resort também opera uma estação própria de tratamento de esgoto capaz de atender uma demanda equivalente à produzida por aproximadamente 15 mil pessoas. Toda a água tratada é reaproveitada na irrigação das áreas verdes do empreendimento.

O movimento também conta com o apoio do Sebrae/MS. A unidade de Bonito implantou internamente a política Lixo Zero e utiliza sua própria experiência como ferramenta de sensibilização dos empresários locais.

Para o gerente regional Oeste do Sebrae/MS, Matheus Oliveira, a sustentabilidade passou a representar não apenas uma questão ambiental, mas também uma oportunidade de diferenciação competitiva para os pequenos negócios ligados ao turismo.

Segundo ele, práticas sustentáveis ajudam a reduzir custos operacionais, fortalecem a imagem das empresas e atendem a uma demanda crescente de consumidores atentos às questões ambientais.

Os resultados desse esforço coletivo já são percebidos por quem visita a cidade.

O engenheiro Eduardo Leal, turista que esteve recentemente em Bonito, afirma que a limpeza urbana e a conservação dos atrativos chamam atenção logo nos primeiros dias de permanência.

“É muito importante manter a natureza preservada”, resume.

Enquanto a geração de resíduos cresce em todo o mundo, Bonito busca transformar um problema ambiental em oportunidade de inovação, geração de renda e preservação. Uma estratégia que pretende garantir que o principal patrimônio do município, a natureza, continue sustentando o turismo e a economia local pelas próximas décadas.

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