Entidade vê risco em uso do FGTS e avanço das apostas como fatores de pressão sobre famílias
Da Redação

O alto índice de consumidores que voltam a ficar inadimplentes após renegociar dívidas acendeu um alerta no varejo da Capital. Levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) aponta que oito em cada dez pessoas que limparam o nome recentemente retornaram ao cadastro de inadimplentes em menos de um ano, fenômeno que o setor passou a chamar de “efeito porta-giratória”.
O cenário ocorre no momento em que o governo federal articula uma nova fase do programa Desenrola, voltado à renegociação de dívidas. Para a CDL Campo Grande, no entanto, os dados locais indicam que a solução não está apenas na “limpeza de nome”, mas na capacidade de o consumidor sustentar o orçamento no médio prazo.
Segundo a entidade, a combinação de custo de vida elevado, crédito de fácil acesso e juros considerados altos tem dificultado a reorganização financeira das famílias. O resultado é um ciclo em que dívidas são renegociadas, mas rapidamente substituídas por novas obrigações.
Um dos pontos de preocupação é o uso do FGTS como garantia ou forma de pagamento. Na avaliação da CDL, o fundo funciona como reserva de segurança do trabalhador e seu uso para quitar dívidas de consumo pode aumentar a vulnerabilidade em situações como desemprego.
Outro fator apontado pela entidade é o crescimento das apostas esportivas online. De acordo com a CDL, parte da renda das famílias tem sido direcionada a essas plataformas, reduzindo o orçamento disponível para despesas essenciais e contribuindo para o aumento da inadimplência.
Para o presidente da CDL Campo Grande, Adelaido Figueiredo, o momento exige atenção ao modelo de concessão de crédito e aos hábitos de consumo. “O Desenrola limpa o nome, mas o mercado oferece logo em seguida crédito com juros elevados. Além disso, há o estímulo ao uso do FGTS e o avanço das apostas. Isso cria um ciclo de reincidência que preocupa o varejo”, afirmou.
Ele também avalia que o impacto vai além das finanças individuais. “Quando o consumidor compromete renda com juros altos ou apostas, reduz o consumo básico e afeta diretamente o comércio local”, disse.
A CDL orienta consumidores a priorizarem despesas essenciais e evitarem comprometer recursos como o FGTS. Já aos empresários, a entidade recomenda cautela na concessão de crédito, especialmente para clientes com histórico recente de inadimplência.
A análise da entidade indica que o principal gargalo está no setor financeiro, com destaque para o uso do crédito rotativo e modalidades de financiamento consideradas de alto custo. Para o varejo, a redução da inadimplência passa não apenas por renegociação, mas por condições mais sustentáveis de crédito e maior equilíbrio no orçamento das famílias.





