Imagens submersas captadas por Ruver Bandeira mostram atrativos tradicionais sob novas perspectivas e reforçam o potencial turístico e ambiental do Mato Grosso do Sul.
Anderson Viegas
Bonito e Bodoquena, dois dos destinos turísticos mais conhecidos do Mato Grosso do Sul, ganharam novos contornos a partir do olhar do fotógrafo cearense Ruver Bandeira, que esteve no estado para a realização de ensaios fotográficos inusitados em cavernas submersas, fervedouros, nascentes e rios de águas cristalinas que mais parecem aquários naturais. A proposta foi mostrar esses atrativos tradicionais sob ângulos pouco explorados, revelando detalhes da flora e da fauna submersas e evidenciando a riqueza ambiental da região. Veja mais no vídeo acima:
A expedição fotográfica passou por alguns dos principais cartões-postais de Bonito e Bodoquena, entre eles o Abismo Anhumas, a Gruta do Mimoso, a nascente do Olho D’água, o Rio da Prata, o Rio Azul e um fervedouro localizado em Bodoquena. Os registros integram uma série de imagens que destacam não apenas a beleza cênica dos locais, mas também a importância da preservação ambiental em um dos territórios de maior biodiversidade do Brasil.
Mato Grosso do Sul abriga ecossistemas de relevância nacional e internacional, o que exige a adoção permanente de ações voltadas à conservação ambiental. Campo Grande, capital do estado, está a cerca de 266 quilômetros de Bodoquena e 297 quilômetros de Bonito, municípios que vêm se consolidando como polos do ecoturismo brasileiro, impulsionando a economia local e atraindo turistas do Brasil e do exterior.
Um dos pontos centrais do trabalho foi o Abismo Anhumas, situado a 23 quilômetros do centro de Bonito. Descoberto na década de 1970 após um incêndio na área da fazenda onde está localizado, o local revelou uma impressionante caverna com um lago de águas cristalinas que chega a cerca de 80 metros de profundidade.

Para acessar o lago, é necessário descer aproximadamente 72 metros por meio de rapel, atualmente realizado de forma elétrica, em uma experiência que permite observar um amplo salão de espeleotemas calcários, frequentemente comparado a uma catedral natural.
O período escolhido para as imagens coincidiu com os meses em que o salão recebe mais iluminação natural, entre dezembro e o início de fevereiro.

No mergulho recreativo, autorizado até cerca de 18 metros de profundidade, é possível contemplar formações calcárias em forma de cones, incluindo o maior cone submerso do mundo, além da ossada de um tamanduá com mais de dois mil anos, preservada pelas condições da água, que mantém temperatura média de 18 graus.
Outro destaque do ensaio foi a Gruta do Mimoso, caverna alagada reconhecida por suas formações calcárias raras, como estalactites, cones e crostas, e por suas águas de extrema transparência. Reaberta para visitação em 2022, após anos fechada, a gruta oferece uma experiência singular tanto para flutuação quanto para mergulho. No local, Ruver utilizou a técnica de longa exposição com light painting para registrar o salão dos cones, contando com o apoio de uma equipe de mergulhadores experientes, especializados em mergulho em caverna, que iluminaram manualmente as formações com lanternas subaquáticas.

A jornada seguiu pela Reserva Particular do Patrimônio Natural que abriga a nascente e o Rio da Prata. Para chegar aos pontos de flutuação, o fotógrafo percorreu trilhas em meio à mata ciliar dos rios Olho D’água e Prata, passando por árvores de grande porte, orquídeas e bromélias, além de observar espécies da fauna local, como quatis, macacos, porcos-do-mato, cotias e antas.
A nascente do Rio Olho D’água se apresenta como uma grande piscina natural, com águas translúcidas e vegetação submersa abundante, habitada por peixes como piraputangas, piaus, lambaris, dourados e curimbatás, além de répteis como o jacaré-coroa.

Em Bodoquena, a cerca de 90 quilômetros de Bonito, o trabalho fotográfico incluiu o Rio Azul e um fervedouro local, ambos integrantes do empreendimento Nascentes da Serra. O roteiro inclui passeios de barco pelo Rio Salobra e flutuação nas águas cristalinas do Rio Azul, aberto à visitação desde o início de 2022.

Com percurso de aproximadamente 620 metros, a flutuação permite observar peixes, plantas aquáticas e o fenômeno da oxigenação da água em dias ensolarados, quando pequenas bolhas se fixam ao corpo dos visitantes. Com sorte, é possível avistar espécies como sucuris, jacarés e ariranhas.

Os fervedouros, fenômenos naturais formados por nascentes de rios subterrâneos sem vazão suficiente, também foram registrados. Extremamente sensíveis, esses ambientes exigem regras rigorosas de visitação, como a proibição de pisar nas bordas, para evitar a suspensão de sedimentos e a perda da transparência da água.
Com quase três décadas de atuação, Ruver Bandeira completa 30 anos de carreira em 2026. A trajetória no mundo submerso começou em 1996, após um batismo de mergulho em Fernando de Noronha.
“Quando conheci, eu me apaixonei pelo mundo submerso. Toda aquela beleza que me encantava, eu queria compartilhar com minha família, amigos e assim surgiu a ideia de registrar o que eu via quando estava mergulhando”, recorda.
Segundo ele, o trabalho vai além da estética. “Se não soubermos preservar esse frágil ecossistema, não ficará nada para ser apreciado pelas futuras gerações. Devemos lembrar também que, para a manutenção da vida em nosso planeta, a água é um recurso essencial”, afirma.
Com sensibilidade e excelência técnica, o fotógrafo já conquistou mais de 32 premiações ao longo da carreira. Em Bonito e Bodoquena, suas imagens ajudam a mostrar que os atrativos turísticos mais conhecidos do Mato Grosso do Sul ainda guardam novas formas de serem vistos, reforçando o papel da fotografia como instrumento de valorização ambiental, turística e cultural.





