Episódio 2 – Oceano Pacífico, múmias, aquedutos, Nazca e uma noite no oásis.
Ariosto Mesquita (ariostomesquita@gmail.com)
Após um “banho” de deserto (e teríamos mais pela frente), e deslocamentos por vans nas imediações de São Miguel do Atacama, embarcamos na “nave-mãe” (carinhoso apelido que o grupo cunhou para o ônibus) rumo a Arica, no extremo norte do Chile, às margens do Oceano Pacífico. Em resumo, significava sair de uma altitude por vezes superior a 4.000 metros e despencar para o nível do mar, em um percurso aproximado de 700 km. Deixamos São Pedro pouco depois das 23 horas do dia 30 de dezembro e chegamos a Arica no meio da manhã do último dia do ano.

De cara a constatação: a cidade é cercada de areia: de um lado as praias do Pacífico e de outro as dunas e montanhas áridas. Ou seja: andamos, andamos e o Atacama continuava conosco. Um pouco mais leve, urbano e de temperatura bem mais agradável e menos oscilantes, é verdade (entre 20 e 25 graus). Não à toa Arica (aproximadamente 250 mil habitantes) é considerada a área urbana mais seca do mundo. De acordo com a publicação (https://hypescience.com/) a precipitação média é de 0,761 mm/ano.
Confira o primeiro episódio da série:
- 23 dias de ônibus pela América Latina – Cataratas, churrasco, tortilha, vulcão e um banho de deserto
Portanto, uma das limitações da região é justamente a escassez de água para o consumo humano, de animais e plantas. Para suprir, faz o transporte em caminhões pipa a partir de regiões vizinhas, utiliza processo de dessalinização da água do mar e trabalha com agricultura adaptada (técnicas para climas secos e cultivos que exigem pouca umidade).
Mas a vida corre solta. Quando se chega, pouco ou nada se percebe dessas limitações. A Expedição foi recebida no meio da manhã do dia 31 com um café da manhã na Praia de Lisera, região sul da cidade. Iniciativa subsidiada pela Nova Palmira e parte bancada pelo grupo.
Em seguida visitamos um dos mais importantes espaços de reconstrução da memória histórica da humanidade nas américas: o Museo Arqueológico San Miguel de Azapa (pertencente à Universidade de Tarapacá). Ele abriga as múmias de Chinchorro, consideradas as mais antigas do mundo, com mais de 7.000 anos (As egípcias, encontradas até agora, datam a partir de 2.000 anos depois).
Os chinchorros eram caçadores-coletores do deserto e conseguiram desenvolver técnicas de mumificação na tentativa de preservar seus mortos junto ao mundo dos vivos. O museu reúne cerca de 20 mil peças documentando as diversas civilizações que habitaram a região, incluindo os pastores aimaras presentes ainda hoje em áreas de Bolívia, Peru e Chile. Em sua parte externa, é difícil não se emocionar com diversos petróglifos (entalhes rupestres esculpidos em rocha). Visitar esse museu arqueológico é obrigatório e ajuda a entender melhor o antes, durante e depois do Império Inca.
A expedição também conheceu o Morro de Arica, local estratégico durante a Guerra do Pacífico, confito que ocorreu entre 1879 e 1883 entre Chile e as forças unidas do Peru e da Bolívia. Lá estão vestígios e referências à Batalha de Arica, travada dia 7 de junho de 1880 e que, segundo relatos, durou apenas 55 minutos. O exército chileno (com algo na casa de 8.000 homens) massacrou 1.600 peruanos e tomou Arica, mantendo até hoje a cidade como seu território. Do alto do morro é possível visualizar perfeitamente como a cidade é “cercada” pelo mar e pelo deserto.
Frutas, virada e leões marinhos
Antes de fazer o check-in no confortável Novotel Arica, a turma ainda passou pelo Mercado Asoagro, também conhecido como Terminal Agrícola de Arica. O lugar é um amplo mercado com uma enorme variedade de produtos.Criado por produtores rurais e comerciantes dos vales mais próximos, hoje se tornou o centro de abastecimento de alimentos mais importante do norte chileno.

Como era o último dia do ano, o local fervia de gente. Lá é possível encontrar de tudo um pouco: carne de alpaca, chás, bebidas, batatas e milhos das mais diversas cores e sabores além de frutas. E muitas frutas. É quase impossível resistir a suculentos pêssegos a 1.000 pesos chilenos/kg = R$ 6,60. Um vinho Santa Rita Gran 120 ao equivalente a R$ 22, também foi para a mochila.

Ao final de uma tarde de sol alguns optaram por um banho de mar nas frias águas do Pacífico, mais especificamente na Praia de Chinchorro, bem em frente ao hotel que já adiantava os preparativos para a virada de ano. Aliás, o réveillon no Novotel Arica foi quase totalmente brasileiro, uma vez que ali, além de nós, estavam hospedados mais dois grupos saídos do Brasil que também percorriam a região em ônibus. Após um jantar e os tradicionais brindes, um baile de máscaras agitou a galera até 4 da manhã.
No primeiro dia de 2026 restou tomar um café da manhã um pouco mais tarde e se preparar para embarcar na “nave-mãe” rumo ao Peru. Antes, uma passadinha rápida no Terminal Portuário de Arica. Veio na mente um filme. O local lembra muito um recorte de Bodega Bay, no norte da Califórnia (EUA), local que serviu de cenário para a clássicaobra “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock, lançada em 1963. Acompanhamos um “show” de leões marinhos, que lá convivem com gaivotas e pelicanos em busca de restos de peixes deixados por pescadores.
Ceviches, mariscos e as incríveis Linhas de Nazca
Após cruzar a aduana, nossa primeira parada foi para o almoço de ano novo momento que serviu para uma pequena introdução à culinária peruana. O lugar escolhido pela expedição foi o Restaurante “La Glorieta”, em Tacna, cidade no extremo sul do país. De entrada veio uma cumbuquinha de milho assado como cortesia (e como são grandes e variadas as espigas peruanas).
Experimentamos “Ceviche Mixto” (35 soles – com peixe, marisco, lula, polvo, etc.) e “Chaufa de Mariscos” (40 soles – uma espécie de arroz frito com frutos do mar, cebolinha e gengibre). Arredondando para a moeda brasileira, na cotação do período, pagamos R$70,00 e R$80,00, respectivamente. Comida farta, de qualidade e saborosa.

O percurso entre Arica (Chile) e Nazca, no Peru, levou perto de 15 horas, boa parte pela Rodovia Panamericana Sul, que percorre extenso trecho do litoral peruano, margeando o Pacífico. Restando perto de duas horas de viagem, voltamos a topar com paisagens lunares, dessa vez do Deserto de Nazca. Ali, no dia 2 de janeiro, nos aguardava uma das mais marcantes experiências da viagem: sobrevoar a região das Linhas de Nazca, famosa por reunir centenas de geoglifos (desenhos de figuras escavados no solo) enigmáticos que só podem ser vistos, na totalidade de sua imagem, do alto.

De acordo com os estudos mais recentes, essas marcas foram criadas pela Civilização Nazca entre 500 a.C. e 500 d.C. Portanto, permaneceram desconhecidas por séculos e só foram descobertas e estudadas a partir dos primeiros voos do homem (balões e aviões).

Sendo assim, contratamos um sobrevoo (US$ 125 por pessoa) em um monomotor Cessna 207 A da AeroFenix Nazca (uma das operadoras autorizadas a atuar no aeródromo da cidade), um asa alta mais alongado, que levou sete passageiros, incluindo o piloto (Coronel Mendez Weisen) e o copiloto (Parodi Moncayo Alejandro). Para quem quer ter a experiência de ver os geoglifos da melhor forma possível enquanto recebe informações (em portunhol)sobre cada um, este voo é recomendado. Sua duração foi de 35 minutos. O piloto contorna e gira a aeronave tanto para a direita quanto para a esquerda facilitando registro em fotos e vídeos.

Não há ainda um consenso sobre a razão da existência e função destes geoglifos que só podem ser compreendidos do alto. Há diversas teorias, inclusive aquela popularizada pelo livro “Eram os Deuses Astronautas”, lançado em 1968 por Erich von Däniken. A obra sugere que os desenhos eram mensagens e sinalizações para visitantes extraterrestres. Uma das figuras, em especial – a do “astronauta” – alimenta esta ideia.

Entretanto, em nenhum momento encontramos em Nazca, algum profissional defendendo ou mesmo citando esta possibilidade. Questionado, o arqueólogo Carlos Rupinick, que reside em Nazca, foi enfático: “Não existe nenhuma relação entre as linhas de Nazca e a teoria dos antigos astronautas. Os desenhos são entendidos como a representatividade da vida e de ideias, sobretudo religiosas. Alguns geoglifos mais antigos, por exemplo, retratam lhamas e pastores. E talvez olhar o resultado de todo este trabalho não fosse importante para seus autores”.
Deixando o aeródromo, a expedição seguiu para os Aquedutos de Cantalloc, um dos mais significativos exemplos do poder de engenharia da antiga cultura Nazca. Boa parte destas impressionantes estruturas foram construídas em formato espiral, por vezes alcançando profundidades superiores a 10 metros. Originalmente estima-se que 46 aquedutos foram construídos em pontos próximos à cidade volta de 500 d.C.

O mais interessante, porém, é a perenidade dessas obras. De acordo com os nativos, pelo menos 30 aquedutos permanecem em atividade, levando água para diversos cultivos agrícolas, cobrindo uma área superior a 2.000 hectares em vales da região. Bem perto de um desses conjuntos, encontramos uma lavoura de avocado (uma variedade menor do abacate) em plena safra. Nunca é demais lembrar que estávamos em pleno deserto.

Passando a noite em um Oasis
Em duas horas de estrada deixamos Nazca e chegamos a Ica, no deserto,capital do departamento e da província de mesmo nome. É considerado um centro vinícola se destacando pela produção de pisco (destilado de uva).

Com mais 15 minutos de percurso estávamos naquele que se tornou a “cereja do bolo” desta etapa: o Oásis de Huacachina. Uma belezura! A surpresa é maior quando te contam que é considerado o único oásis natural da América do Sul. Ele teria sido formado por correntes de água subterrânea que acabaram por permitir o crescimento de plantas rasteiras e árvores em pleno deserto.

O lugar é um pequeno vilarejo cercado por dunas que abriga um lago, lojinhas, restaurantes e hotéis. Ficamos uma noite no mais impressionante deles: o Mossone. Construído na primeira metade do século XX, ele lembra um casarão colonial em alta escala. São 26 apartamentos, todos no térreo e que facilmente abrigam uma família, com dois quartos, três camas (uma de casal) e banheiro. Os corredores do hotel são identificados como ruas (calles, em espanhol) e existem sinalizações informando ser o espaço seguro para o caso de “sismos”.

A partir do hotel, com uma rápida caminhada de 10 minutinhos, o visitante estará no pé das dunas. A pedida é subir para ver o incrível visual do oásis lá de cima. Mas cuidado com o calor nas areias. A temperatura, bem confortável no início da manhã, pode chegar a níveis altíssimos no decorrer dos dias.

No grupo da Expedição, alguns tiveram pequenas queimaduras. Uma boa pedida é conhecer as dunas em passeios de 4 x 4. À noite, existem opções de jantar por lá mesmo e/ou encarar uma balada em Ica. O principal meio de transporte por lá são os “tuc-tuc”, veículos motorizados de três rodas que os nativos chamam de “moto”.

O Oásis de Huacachina é surpreendentemente belo e aconchegante. Aexperiência de curtir um dia e de passar uma noite em um lugar desses foi uma das grandes surpresas desta expedição. Permitiu também ganhar fôlego para o que viria pela frente.





