13/03/2026 17:12

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Oscar não dá em árvores: o mérito da distribuição no sucesso do cinema brasileiro

A trajetória até o tapete vermelho é longa e exige competência, suor e investimento.

Ariosto Mesquita (ariostomesquita@gmail.com)*

O que faltava ao cinema brasileiro não era exatamente fazer bons filmes; era saber “vendê-los”, tanto aqui dentro quanto, sobretudo, lá fora. Evidente que se exige esmero cinematográfico, competência técnica e narrativa, mas sem distribuição internacional, uma produção tende a ressoar apenas dentro dos limites territoriais de uma nação (e possivelmente, sem a atenção devida). O apressadinho vai me interromper e dizer que estou comemorando este sucesso me espelhando em apenas dois anos seguidos de indicações de obras nacionais ao Oscar. Muita hora nesta calma (assim mesmo, expressão inversa)! Para contextualizá-lo vou citar tão somente dois períodos de reconhecimento lá fora.

Um deles é o “Cinema Novo”, movimento de inovação cinematográfica surgido no Brasil nos anos 1960 sob o lema “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Com ele, veio o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes de 1968, para Glauber Rocha (feito que o país só repetiu uma vez mais: em 2025 com Kleber Mendonça Filho com “O Agente Secreto”) por “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”.

Não podemos esquecer de “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, o primeiro e único filme brasileiro a conquistar a Palma de Ouro em Cannes (1962). Curiosidade é que, à época, o diretor foi um tanto escanteado pela “vanguarda” do Cinema Novo, sob a alegação de pertencer a uma vertente mais comercial de produção cinematográfica.

Após um período de “crise” ou “desmonte”, nos anos 1990 veio a “retomada”. A obra Central do Brasil (1998), de Walter Salles, acumulou 17 prêmios internacionais, inclusive de “Melhor Filme de Língua não Inglesa” no Globo de Ouro, além de uma indicação ao Oscar de “Melhor Atriz” para Fernanda Montenegro. Quem também levou o Globo de Ouro na mesma categoria foi “Cidade de Deus” (2002) de Fernando Meirelles, que ainda foi indicado a quatro categorias no Oscar: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor direção de fotografia e melhor edição. Porém, não levou nenhuma estatueta.

Nos últimos 30 anos ficamos só nisso? Em produção, não. Em distribuição, quase sempre, sim. Para ser reconhecido por mercados globais, além de talento e resultado final na telona ou no streaming, o cinema necessita de políticas de incentivo e investidores para bancar custos de marketing e campanhas.

Perceba o que aconteceu mais recentemente: Em 2024 a Sony Pictures Classics adquiriu os direitos de distribuição internacional de “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles. A partir dai bancou toda a campanha que culminou na conquista do Oscar de “Melhor Filme de Língua não Inglesa”, em 2025. Na época, uma frase era recorrente: O filme custou R$ 45 milhões, mas a campanha é “incalculável”.  

Caminho semelhante seguiu “O Agente Secreto”. A produtora e distribuidora norte-americana Neon, especialista em adquirir filmes em Cannes e levá-los à inúmeras conquistas (caso de “Parasita”, “Anatomia de uma Queda” e “Anora”, dentre vários), fechou um pacote, comprando várias produções do festival francês, dentre elas a brasileira (para distribuição na América do Norte). Resultado: colocou quatro filmes seus na lista dos cinco indicados a “Melhor Filme Internacional” (Valor Sentimental, O Agente Secreto, Sirat e Foi Apenas um Acidente) no Oscar 2026, sem contar nomeações à inúmeras categorias, inclusive de Melhor Atriz, Melhor Ator e Melhor Filme.

Isso tudo custa, e muito. Não existem muitas referências e divulgações oficiais de valores investidos por distribuidoras como a Neon, mas só para promover “Anora” (vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2025) a empresa teria desembolsado US$ 18 milhões (perto de R$ 100 milhões na cotação da época), três vezes mais do que teria custado a produção. Estima-se que o valor médio de uma campanha ao Oscar gire entre US$ 10 milhões e US$ 25 milhões por filme. Detalhe: isso não inclui a verba de marketing utilizada para promover o longa para o público. Somente para os votantes.

Independente de troféu na mão (ou não), o fato é que entramos no mercado. Começamos a entender que Oscar (ou qualquer grande prêmio) não dá em árvores. A escalada surpreendente de “Ainda Estou Aqui” e a intensa admiração, sobretudo da crítica especializada internacional, por “O Agente Secreto” passam pelo trabalho de fazer com que as pessoas assistam aos filmes. E não é fácil quebrar a bolha de uma língua diferente e esquisita para a maior parte do mundo. O jogo, enfim, está sendo jogado.

* Jornalista, especialista em marketing, mestre em produção e gestão agroindustrial e cinéfilo.

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