24/02/2026 18:54

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O riso faz itinerância: “Mixi pela Cidade” leva circo a territórios onde a arte é urgência nesta semana

(Vaca Azul/Reprodução)

Nesta semana, de terça (24) a sábado (28), o riso vai bater de porta em porta em Campo Grande. Não é buzina de carro de som nem carreata: é a lona imaginária do “Mixi pela Cidade”, projeto que coloca o espetáculo “MixiCirquinho”, da palhaça Mixirica — criação da artista Kelly Figueiredo — em circulação por cinco territórios periféricos onde a arte, mais que entretenimento, é necessidade.

A temporada percorre cinco comunidades, sendo: às 16h, na terça (24), no Projeto Socioeducativo Harmonia e Frutos, no Jardim Colúmbia; às 9h30, na quarta (25), na Escola Municipal Profª Ana Lúcia Batista, no Jardim Paulo Coelho Machado; na quinta (26), às 10h na Escola Municipal Dionízio Antônio Vieira, na comunidade quilombola Furnas do Dionísio; na sexta (27), às 15h na aldeia indígena urbana  Estrela da Manhã, no Jardim Noroeste e, às 10h, no sábado (28), na CUFA, no bairro São Conrado. Todas comunidades situadas em bairros periféricos, ampliando o acesso à palhaçaria dedicada às infâncias e reafirmando a cultura como direito.

“MixiCirquinho” já tem trajetória consolidada pelo interior de MS. Agora, com “Mixi pela Cidade”, a proposta é descentralizar. Ir até onde a plateia nem sempre consegue ir.

“O que me motivou foi ampliar o alcance do espetáculo ‘MixiCirquinho’ e garantir que essa experiência chegasse a territórios com menos acesso a ações culturais. Ao perceber a força do trabalho e o impacto que ele gera, especialmente nas crianças, surgiu o desejo de descentralizar a arte, ocupar praças e comunidades e possibilitar que mais pessoas tenham contato com o teatro e o circo, muitas vezes pela primeira vez. ‘Mixi pela Cidade’ nasce como um movimento de expansão e democratização cultural”, afirma a proponente do projeto, Kelly Figueiredo.

Itinerância: Circo que cabe na mochila e no coração – No picadeiro portátil de 40 minutos, a palhaça Mixirica apresenta ao público sua amiga de tempos pandêmicos, Mixipulga. Entre corda bamba, saltos improváveis e mágicas improvisadas, o espetáculo recria o universo do circo clássico com o que há de mais essencial: presença.

Mais do que números, a narrativa é costurada pela amizade entre as duas personagens — fio condutor que trabalha valores de companheirismo, respeito às diferenças e empatia.

“Elas mostram que cada uma tem seu jeito, suas habilidades e seus limites, e que é justamente essa diversidade que fortalece a parceria. Busco destacar a empatia e o diálogo na resolução de conflitos, mostrando às crianças que a amizade se constrói com cuidado e apoio mútuo”, explica a artista.

A montagem é classificada como livre, com capacidade de até 100 crianças por sessão, sempre com entrada gratuita.

E o que está em jogo vai além do entretenimento. Entre os territórios que recebem o projeto está a comunidade quilombola Furnas do Dionísio, onde o educador e pesquisador Vanderlei dos Santos acompanha de perto a relação entre cultura e formação.

Ele faz questão de pontuar que iniciativas culturais em comunidades tradicionais exigem escuta real — e mudança de postura. “A gente precisa eliminar de uma vez por todas o discurso de ‘dar voz’. Essas comunidades já têm voz. Não é fazer por eles ou para eles. É fazer com eles — e nada deles sem eles. Primeiro é preciso escutar para aprender com os saberes que já existem ali”.

Vanderlei também chama atenção para a dimensão estrutural da política cultural. “Historicamente, comunidades quilombolas quase não tiveram projetos aprovados em editais estaduais. Recentemente, com leis como a Aldir Blanc e a Paulo Gustavo, começamos a ver mudanças, mas ainda são políticas com prazo determinado. O que precisamos é de política de Estado permanente”.

Dentro desse contexto, a presença de um espetáculo de artes cênicas na escola quilombola tem peso simbólico e pedagógico. “No ensino de arte, trabalhamos o fazer, o pesquisar e o apreciar. O apreciar costuma ser o mais reduzido nesses territórios. Quando o espetáculo vem até a comunidade, ele garante o acesso real à fruição artística. Isso contribui diretamente para a formação dos educandos”.

Palhaçaria como território de formação – Em tempos de excesso de telas e pouco encontro presencial, o circo aparece como tecnologia ancestral de convivência.

“O circo devolve à infância o olhar no olho, o riso compartilhado, a imaginação coletiva. A criança não é espectadora passiva — ela participa, reage, cria junto. A palhaçaria valoriza o erro como parte do processo, transforma fragilidades em potência e ensina sobre coragem e superação”, diz Kelly.

A adaptação para cada território é feita na escuta. “Cada espaço tem seu ritmo. Não é só adaptação técnica, é adaptação humana. A rua pede uma improvisação mais viva, alguns contextos pedem mais acolhimento. Cada apresentação se constrói junto com o público daquele lugar.”

É nesse diálogo que o projeto encontra sua potência: levar arte para onde ela raramente chega — mas onde sempre fez falta. Entre gargalhadas, quedas fingidas e mágicas de bolso, o “Mixi pela Cidade” reafirma que política cultural não é favor. É construção de futuro. E que, às vezes, a revolução começa com uma palhaça equilibrando o mundo numa corda invisível.

“Mixi pela Cidade” conta com Kelly Figueiredo na dramaturgia, cenografia e atuação; Marcelo Leite na produção e sonoplastia; Breno Lucas como social media; Edner Gustavo na iluminação e Arruda Comunicação na assessoria de imprensa. 
O projeto conta com financiamento da PNAB – Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do MinC – Ministério da Cultura, Governo Federal, via edital da Fundac, Prefeitura de Campo Grande. Apoio Fulano di Tal. Informações pelo Instagram @palhacamixirica.

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