
Durante muito tempo, empresas podiam tratar o ambiente político como pano de fundo. Algo importante, claro, mas externo à rotina do negócio. Em 2026, essa separação ficou frágil demais para ser ignorada.
Relatórios recentes sobre riscos globais apontam aumento de polarização, tensões geopolíticas e instabilidade institucional como fatores centrais para o ambiente econômico. O Fórum Econômico Mundial, no Global Risks Report 2026, destaca conflitos geoeconômicos e fragmentação política como riscos relevantes no curto prazo. Não se trata apenas de diplomacia ou eleições. Trata-se de impacto direto sobre cadeias produtivas, confiança e percepção pública.
O que muda para as empresas? Muda quase tudo.
Decisões que antes eram vistas como puramente técnicas agora são interpretadas sob lentes políticas. Ajustes de preço, revisão de fornecedores, posicionamentos sobre temas sociais ou ambientais passam a ser lidos como alinhamentos ideológicos. Mesmo quando não há intenção de se posicionar, há sempre alguém disposto a interpretar.
Consultorias internacionais já vêm alertando para esse cenário. A neutralidade corporativa deixou de ser confortável. Em ambientes polarizados, silêncio pode ser lido como cálculo. Fala pode ser lida como provocação. E a empresa, queira ou não, acaba inserida em disputas narrativas que não escolheu travar.
Esse deslocamento é sutil, mas profundo. A reputação não está mais ligada apenas à qualidade do produto ou à eficiência da gestão. Ela está conectada à capacidade de compreender o contexto político em que stakeholders estão inseridos. Investidores, consumidores e parceiros avaliam não só desempenho, mas coerência e posicionamento diante de temas sensíveis.
Não significa que toda organização precise se tornar ator político. Significa que nenhuma pode fingir que o ambiente político não influencia a leitura pública de suas decisões.
A governança, nesse cenário, ganha outra dimensão. Mapear riscos não envolve apenas indicadores financeiros ou operacionais. Envolve entender o clima social, a agenda regulatória, o humor coletivo. Envolve reconhecer que fatores externos podem redefinir rapidamente a percepção sobre escolhas internas.
Talvez a mudança mais difícil de aceitar seja esta: a reputação deixou de ser construída apenas pelo que a empresa faz. Ela também é moldada pelo momento histórico em que a empresa decide agir.
Ignorar isso não elimina o risco. Apenas torna a surpresa mais provável.
Em 2026, o mapa de risco reputacional não está só dentro da organização. Ele está espalhado pelo ambiente político, pelas disputas narrativas e pelas expectativas sociais. E liderar, hoje, exige ler esse mapa antes que ele seja imposto de fora para dentro.

Jefferson Braun é jornalista, com mais de seis anos de atuação em comunicação estratégica, imagem institucional, reputação e prevenção de crises. Possui MBA em Jornalismo Empresarial e MBA em Prevenção e Gerenciamento de Crise. Ao longo da carreira, atuou na gestão de comunicação de organizações e projetos ligados ao setor institucional e produtivo, acompanhando de perto decisões, posicionamentos e seus impactos públicos. Nesta coluna, propõe reflexões sobre risco, imagem e comunicação a partir da leitura de cenários reais do cotidiano empresarial.
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