Antes de terem um espaço de trabalho protegido do sol e da chuva, os catadores de Campo Grande precisaram construir algo que não dependia de paredes: a confiança de que, juntos, poderiam mudar a própria realidade. Gilda Macedo ajudou a reunir os trabalhadores e a defender a ideia de que a organização coletiva poderia melhorar suas condições de vida. Naquele tempo, muitas famílias dependiam do que conseguiam recolher no lixão para viver.
No bairro Dom Antônio Barbosa, na região do Anhanduizinho, o trabalho era realizado a céu aberto, entre resíduos, mau cheiro, fumaça e fogo. Sem proteção adequada, os trabalhadores enfrentavam riscos de acidentes e de contrair vários tipos de doenças, além da insegurança em relação ao que conseguiam coletar, já que as mudanças do tempo afetavam diretamente a busca e o recolhimento do que poderia ser vendido. Muitos moravam nas proximidades e tinham naquele trabalho a única fonte de renda para sustentar a família. Para sair dali, precisavam encontrar uma forma de continuar trabalhando e garantir o sustento de suas casas.
Em 2008, Gilda começou a mobilizar os colegas para essa mudança. Dois anos depois, em 2010, foi instituída a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei Federal 12.305/2010). O marco legal estabeleceu a eliminação dos lixões, associada à inclusão social e econômica dos catadores.
Ela, ao lado do marido, Daniel, participou da construção de uma proposta de associação que desse aos trabalhadores condições de buscar um espaço, equipamentos e apoio do poder público. Houve encontros nas casas dos catadores, reuniões comunitárias e conversas para convencer quem estava acostumado a trabalhar por conta própria de que a organização coletiva poderia abrir portas. “Porque, individual, você não consegue nada”, resume Gilda.
A ideia ganhou forma em 20 de agosto de 2010, com a formalização da Associação dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis nos Aterros Sanitários de Mato Grosso do Sul (Atmaras). Mesmo sem recursos, os integrantes dividiram as despesas necessárias para constituir a entidade. Cada integrante contribuiu para que a associação pudesse existir.
Com Gilda entre suas principais lideranças e fundadoras, a associação passou a representar os trabalhadores nas reivindicações por melhores condições. Reunidos, os catadores passaram a ter melhores condições de negociar com o poder público, procurar parceiros e buscar uma alternativa ao lixão.
Em setembro de 2012, a implantação da coleta seletiva permitiu que 52 trabalhadores começassem a atuar em um galpão provisório cedido pela prefeitura. Para quem passava o dia exposto ao sol e à fumaça, trabalhar sob um teto representava uma mudança concreta. A mudança vinha depois de anos de reuniões e reivindicações.
O lixão de Campo Grande foi fechado em dezembro de 2012, mas uma decisão judicial permitiu que os catadores retomassem o trabalho em uma área de transição, em janeiro de 2013, enquanto aguardavam a conclusão da Unidade de Triagem de Resíduos (UTR). A estrutura foi inaugurada em agosto de 2015, mas parte dos trabalhadores continuou na área provisória até fevereiro de 2016, quando a proibição judicial de acesso entrou em vigor. O fechamento definitivo ocorreu em 29 de fevereiro daquele ano.
Em meio a essas idas e vindas judiciais, a organização dos catadores avançou com a formação de cooperativas e a incorporação de outros trabalhadores que ainda permaneciam no lixão. Atualmente, a Atmaras, a Coopermaras, a Cata-MS e a Novo Horizonte atuam na UTR, em Campo Grande.
Cada um dos grupos cuida de uma esteira na UTR, onde os trabalhadores fazem a separação de cerca de 55 tipos diferentes de materiais. Segundo Gilda, os quatro grupos reúnem cerca de 130 catadores.

O trabalho conjunto dos catadores, por meio das entidades, permitiu acessar projetos do poder público para adquirir equipamentos de proteção individual (EPIs) e uniformes, melhorar a estrutura da UTR, incluindo a implantação de um restaurante no local, e oferecer capacitações para operar máquinas, cursos de brigadista em prevenção e combate inicial a incêndios e treinamentos em primeiros socorros.
A diferença aparece na rotina: o material agora é separado em um barracão, com mais estrutura e proteção contra o clima e doenças. Na avaliação de Gilda, a organização trouxe melhores condições de trabalho e mais dignidade.
Essa transformação alcança também as famílias. Segundo ela, as mulheres representam cerca de 70% dos trabalhadores das cooperativas. Para muitas delas, que são mães solo e chefes de família, a renda obtida com a reciclagem mantém a casa, por isso, qualquer melhoria ou avanço nas condições de trabalho faz diferença na renda das famílias.
As dificuldades, porém, continuam. Gilda relata que os recicláveis chegam misturados a rejeitos e até animais mortos. Os catadores precisam retirar o que não pode ser aproveitado e encaminhá-lo ao aterro. A separação inadequada aumenta o esforço e reduz a quantidade de material disponível para venda.
A comercialização dos recicláveis e a participação na logística reversa ajudam a compor a renda, mas Gilda defende que os catadores também sejam remunerados pelo serviço que prestam à cidade. Depois de conquistar melhores condições de trabalho, os grupos agora reivindicam reconhecimento financeiro pela atividade social e ambiental que desenvolvem em favor do município. “Tem que ser pago para podermos ter uma condição melhor de vida, porque nós tiramos toneladas de material do aterro”, destaca a presidente da Atmaras.
Muito resíduo, pouco aproveitamento
A reivindicação de Gilda se insere em um desafio mundial que os números ajudam a dimensionar. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), a geração de resíduos sólidos urbanos pode passar de 2,3 bilhões de toneladas, em 2023, para 3,8 bilhões de toneladas anuais até 2050.

No Brasil, a geração ultrapassou 81 milhões de toneladas em 2024, conforme a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Isso representa mais de 220 mil toneladas por dia. Em média, cada brasileiro gera cerca de um quilo de resíduos por dia.
Em Mato Grosso do Sul, os 79 municípios declararam ao Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa) a coleta de 931,5 mil toneladas de resíduos urbanos em 2024. Os números integram os dados consolidados mais recentes divulgados pelo sistema.
Desse total, 731,1 mil toneladas eram resíduos domiciliares e 200,4 mil toneladas vieram da limpeza urbana. A coleta seletiva recolheu 31,4 mil toneladas, já incluídas na massa domiciliar. A quantidade de materiais recuperados, considerando secos e orgânicos, chegou a 20,1 mil toneladas, equivalente a somente 2,16% do total coletado.
O Sinisa registrou naquele ano 40 associações ou cooperativas e 681 catadores organizados no estado. Esses trabalhadores atuam em uma cadeia que transforma materiais descartados em receita e reduz a quantidade encaminhada à disposição final.

Em Campo Grande, foram coletadas 307,1 mil toneladas, aproximadamente um terço do total estadual. Eram 296,8 mil toneladas de resíduos domiciliares e 10,4 mil toneladas da limpeza urbana. A coleta seletiva recolheu 7,3 mil toneladas, enquanto a massa recuperada ficou em 2,7 mil toneladas, apenas 0,87% do total coletado. Isso significa que, para cada 100 quilos recolhidos na capital, menos de um quilo foi registrado como recuperado.
A cobertura declarada da coleta seletiva alcançava 69,1% da população, mas o material recolhido por esse serviço representou 2,47% da massa domiciliar coletada, conforme o Sinisa. Os indicadores medem etapas diferentes: a cobertura informa o alcance do serviço, enquanto a participação na massa mostra quanto foi recolhido separadamente. Ampliar a recuperação exige também a separação dos resíduos nas casas e condições adequadas para a triagem e a comercialização.
O estudo de composição dos resíduos registrado pela capital aponta que 46% eram alimentos e resíduos verdes. Plásticos representavam 16,4%; papéis, 8,1%; vidros, 6,6%; e metais, 0,5%. Têxteis correspondiam a 5,7%, e outros materiais, a 16,7%.
Os quatro grupos de recicláveis secos (plástico, papel, vidro e metal) somavam 31,6% da composição estudada. Esse percentual mostra a presença desses materiais no descarte, mas não representa a parcela efetivamente reciclada nem significa que toda essa quantidade possa ser recuperada nas condições locais.
Organizar o trabalho para melhorar a renda
Para ampliar a reciclagem, no entanto, não basta aumentar a quantidade de material que chega às mãos dos catadores. Há outro desafio depois da coleta e da separação: fazer com que as cooperativas tenham estrutura para funcionar, negociar e transformar o material recuperado em renda para quem vive dessa atividade.
É justamente nesse ponto que o Sistema OCB/MS (Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Mato Grosso do Sul) pretende atuar com o CataCoop, projeto criado para fortalecer as cooperativas de reciclagem do estado. A iniciativa foi formatada em junho, depois de um período de levantamento de informações, visitas e conversas com organizações do setor iniciado ainda no ano passado. Veja mais sobre o projeto no vídeo acima.
O projeto começa com 13 cooperativas distribuídas por 11 municípios: Campo Grande, Alcinópolis, Costa Rica, Amambai, Juti, Maracaju, Naviraí, Itaquiraí, Iguatemi, Três Lagoas e São Gabriel do Oeste. A estimativa inicial da OCB/MS é alcançar diretamente pelo menos 200 catadores e suas famílias.
Segundo Fabrício Rodrigues, coordenador da área de monitoramento de cooperativas da OCB/MS, o diagnóstico que antecedeu o CataCoop revelou organizações que já receberam diferentes tipos de apoio ao longo dos anos, mas, em muitos casos, sem acompanhamento técnico permanente. Essa descontinuidade ajuda a explicar dificuldades que vão desde a documentação até a comercialização dos recicláveis. “A gente percebeu que elas são muito vulneráveis no mercado, muito sujeitas à exploração ainda de terceiros”, afirma Fabrício.
Por isso, a primeira etapa do CataCoop será aquilo que a equipe da OCB/MS chama de “organizar a casa”. Um profissional deverá acompanhar diretamente as cooperativas, com visitas periódicas aos municípios, para verificar estatutos, atas e outros documentos, além dos processos administrativos e das exigências legais necessárias ao funcionamento das organizações.
Manter os documentos em dia faz diferença. Uma cooperativa com documentação incompleta ou desatualizada pode encontrar dificuldades para participar de editais, licitações e outras oportunidades que poderiam gerar receita ou melhorar sua estrutura. A proposta é corrigir essas fragilidades antes de avançar para uma segunda frente do projeto: o mercado.
Com essa base organizada, o CataCoop pretende trabalhar gestão, formação de preços e estratégias de comercialização. A expectativa é ajudar as cooperativas a entender melhor seus custos, negociar os recicláveis em condições mais favoráveis e ampliar o retorno aos cooperados. Uma das metas é reduzir a dependência de intermediários, que muitas vezes compram o material das cooperativas para revendê-lo posteriormente.
O acompanhamento não deverá terminar com a elaboração dos documentos. Depois da estruturação inicial, a OCB/MS prevê capacitações para que os próprios cooperados consigam manter os processos administrativos e de gestão. Também estão previstas formações em áreas como segurança do trabalho e outras demandas identificadas em cada organização.
A OCB/MS também quer aproximar essas cooperativas do sistema cooperativista. Das 13 identificadas inicialmente pelo projeto, apenas três são atualmente registradas no Sistema OCB/MS. A entidade pretende ampliar essa participação e estuda formas de reduzir barreiras, inclusive custos que possam dificultar o ingresso das organizações.
O CataCoop também foi pensado para funcionar em articulação com iniciativas que já atuam no setor. Uma delas é o Projeto Valoriza do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que realizou um diagnóstico de cooperativas e associações de catadores. A intenção é utilizar essas informações para evitar a repetição de levantamentos e direcionar as ações de acordo com as necessidades já identificadas. O MPMS participa das articulações e discute com a OCB/MS a possibilidade de formalização de um acordo de cooperação. O Sebrae/MS também está entre as instituições que já desenvolvem trabalhos junto a organizações desse segmento.
Os municípios são outra peça importante. Como as prefeituras têm responsabilidades na gestão dos resíduos sólidos e na destinação dos materiais recicláveis, a proposta é aproximá-las das cooperativas e auxiliar o poder público a compreender melhor como essas organizações podem participar da coleta seletiva e da cadeia da reciclagem.
A proposta é manter o acompanhamento ao longo do tempo. A OCB/MS já prevê a continuidade do CataCoop em 2027. Além das 13 cooperativas inicialmente mapeadas, o projeto prevê identificar outras organizações em funcionamento, estimular o registro das que ainda estão fora do sistema e desenvolver processos de incubação conforme o estágio de cada grupo.
No longo prazo, a proposta é avançar na integração entre as cooperativas, criando condições para uma atuação mais articulada e para o ganho de escala na comercialização dos materiais. Fabrício cita como referência experiências de Brasília, onde a organização de cooperativas em uma central fortaleceu a comercialização conjunta e ampliou a capacidade de negociação dos catadores.
“A gente quer que nosso Estado também seja uma referência, que a gente consiga fomentar esse grupo a se organizar, que eles ganhem força, que consigam se alocar melhor no mercado e tenham uma melhor remuneração da sua renda familiar”, diz.
O projeto busca dar aos catadores melhores condições de negociar o preço dos materiais que recolhem e separam. Para isso, aposta na organização das cooperativas, na gestão e no acesso ao mercado.
Gilda já participou de reuniões com a OCB/MS e vê na qualificação, na organização das cooperativas e no acesso à tecnologia caminhos para profissionalizar ainda mais a atividade. Para ela, essa mudança também passa pela forma como a sociedade enxerga quem trabalha com reciclagem. “Somos catadores, nós somos empresários.”
A força de um modelo que já movimenta MS
Ao apoiar as cooperativas de reciclagem, a OCB/MS aproxima os catadores de um sistema com forte presença na economia estadual. A organização coletiva que Gilda ajudou a construir encontra, nesse universo, experiências de gestão, comercialização e geração de renda que o projeto pretende levar às entidades do setor.

Segundo levantamento da OCB/MS, Mato Grosso do Sul reúne 738.165 cooperados, número equivalente a 25,24% da população estimada pelo IBGE em 2025. O total cresceu 26,3% em relação a 2024. O estado tem 145 cooperativas registradas, das quais 123 possuem sede em território sul-mato-grossense.
O cooperativismo está presente em 77 dos 79 municípios e emprega 17.121 pessoas, um crescimento de 9,57% na comparação com o ano anterior. Segundo estimativa da entidade, o sistema responde por 18,2% do Produto Interno Bruto estadual.
Os números variam conforme o ramo de atividade. O ramo agropecuário concentra 66 cooperativas e 10.533 empregos, enquanto o de crédito reúne 697.573 associados, ou 94,5% do total de cooperados. A presença também se estende a transporte, saúde, infraestrutura, consumo e trabalho, produção de bens e serviços.
“Quando o assunto é cooperativismo, os números ano a ano revelam um crescente avanço, confirmando a solidez e a confiança contínua nesse modelo em nosso Estado”, afirma o presidente do Sistema OCB/MS, Celso Régis.
Para as cooperativas de reciclagem, o projeto busca fazer essa experiência chegar à gestão e à comercialização dos materiais. Fortalecer as organizações é também dar melhores condições para que o esforço dos catadores se transforme em renda para suas famílias.
Apoio que precisa chegar à rotina
O movimento para fortalecer quem está na base da reciclagem também conta com outras entidades e instituições. Em outra frente, o Sebrae/MS desenvolve um trabalho que combina gestão, inclusão produtiva e articulação com o poder público para tentar fazer com que associações e cooperativas de catadores ganhem estrutura, produtividade e renda.

É o MS Pró-Catadores, iniciativa executada pela primeira vez em Mato Grosso do Sul em 2025 e que entrou em seu segundo ano com uma atuação ampliada. O projeto atende organizações de catadores de materiais recicláveis e, ao mesmo tempo, trabalha com as prefeituras dos municípios onde esses grupos estão instalados. A proposta é atuar nos dois lados de uma relação considerada essencial para a coleta seletiva: quem recupera e comercializa os materiais e o poder público responsável pela gestão dos resíduos urbanos.
O trabalho começou em 2025, quando o Sebrae/MS aderiu à metodologia desenvolvida pelo Sebrae Nacional e estabeleceu como meta inicial atender cinco associações ou cooperativas. Naquele momento, ainda não havia um mapeamento consolidado das organizações de catadores de materiais recicláveis existentes em Mato Grosso do Sul.
Segundo Roberta Marca, analista-técnica do Sebrae/MS e coordenadora do projeto, o primeiro desafio foi justamente conhecer melhor esse universo e identificar onde estavam e em quais condições funcionavam essas organizações. Um consultor foi a campo para realizar esse levantamento e aproximar o Sebrae/MS dos grupos. A resposta encontrada mostrou uma demanda maior do que a inicialmente prevista: em vez das cinco organizações estabelecidas como meta, dez participaram do primeiro ciclo, reunindo 181 catadores.
O atendimento começa com um diagnóstico da situação de cada associação ou cooperativa. A partir dele, é elaborado um plano de ação específico, em vez de aplicar as mesmas soluções indistintamente a todas as organizações. O trabalho com os catadores é dividido em seis frentes: situação legal, administração e finanças, produção e segurança do trabalho, infraestrutura, coleta e relacionamento com outras instituições.
O diagnóstico examina problemas que afetam o funcionamento da organização e a renda dos trabalhadores. O Sebrae/MS verifica, por exemplo, se a documentação está regular, como são administradas as contas, quais dificuldades existem na gestão, em que condições o material é separado e processado, se os trabalhadores utilizam equipamentos adequados e quais mudanças de infraestrutura poderiam aumentar a eficiência do trabalho.
Quando a necessidade envolve máquinas, equipamentos ou melhorias físicas que a organização não consegue financiar, o projeto auxilia na elaboração das propostas e na procura de caminhos para captar os recursos, seja junto às prefeituras, seja por meio de editais.

A segurança de quem trabalha no processo também entrou no diagnóstico. Roberta lembra o caso de uma organização que conseguiu equipamentos de proteção individual por meio da prefeitura. Entregar os equipamentos, porém, não significou que eles passariam automaticamente a fazer parte da rotina dos catadores. Foi necessário trabalhar a conscientização sobre riscos de cortes, acidentes e problemas de saúde.
Esse exemplo ajuda a explicar a lógica do Pró-Catadores. A proposta não é apenas entregar uma solução pronta, mas acompanhar sua implantação. O atendimento é gratuito, mas há uma contrapartida: associações, cooperativas e prefeituras precisam executar as ações definidas no plano de trabalho.
O outro braço do projeto ocorre justamente dentro das administrações municipais. Depois da adesão de uma organização de catadores, o Sebrae/MS procura a prefeitura e apresenta a proposta de trabalho. Com o poder público, são abordadas questões legais, gestão, infraestrutura, coleta seletiva e relacionamento com as associações e cooperativas.
Essa aproximação é estratégica porque uma parte dos problemas enfrentados pelos catadores não pode ser resolvida apenas dentro dos galpões. A coleta dos resíduos, a infraestrutura disponível, a destinação dos materiais e a própria relação contratual entre município e organização dependem também das decisões das administrações municipais.
O balanço de 2025 já apontou resultados. Segundo o Sebrae/MS, as dez organizações acompanhadas naquele ano registraram aumento médio de 16% no faturamento. Ao final do ciclo, sete delas mantinham convênios remunerados com as respectivas prefeituras. Mais do que organizar documentos ou processos internos, portanto, o projeto começou a mexer em um ponto decisivo para os catadores: a entrada de receita.
A experiência levou à ampliação do programa em 2026. Neste ano, o atendimento passou para 18 organizações, sendo nove cooperativas e nove associações, distribuídas por 18 municípios. Os trabalhos começaram em fevereiro e seguem até novembro. Também participam 17 prefeituras.
Estão no projeto organizações de Água Clara, Alcinópolis, Amambai, Brasilândia, Caarapó, Costa Rica, Dois Irmãos do Buriti, Dourados, Iguatemi, Itaquiraí, Nova Andradina, Paraíso das Águas, Rio Brilhante, Rio Verde, São Gabriel do Oeste, Sete Quedas, Tacuru e Três Lagoas. Entre esses municípios, apenas Dourados ainda não havia confirmado a participação da prefeitura.

Para as organizações, o objetivo é melhorar produtividade e gestão para que esses avanços apareçam na renda dos catadores. Para os municípios, o trabalho inclui a adequação às exigências da Política Nacional de Resíduos Sólidos e a busca por uma gestão que também possa gerar resultados ambientais e econômicos, inclusive relacionados ao ICMS Ecológico.
Ao aproximar os dois lados, o Sebrae/MS tenta enfrentar uma fragilidade histórica dessa cadeia: de um lado, associações e cooperativas que precisam se profissionalizar para aumentar produção, negociar melhor e gerar renda; do outro, municípios que precisam estruturar a coleta seletiva e dar destinação adequada aos resíduos.
O crescimento do Pró-Catadores, de dez organizações no primeiro ano para 18 em 2026, mostra que esse processo começa a ganhar escala. E reforça uma mudança de perspectiva que também aparece em outras iniciativas voltadas à reciclagem no Estado: tratar associações e cooperativas não apenas como destino social dos resíduos, mas como organizações produtivas que precisam de gestão, mercado, estrutura e remuneração para permanecer de pé.
Na prática, organização que começa a dar resultado
Os resultados do MS Pró-Catadores começam a aparecer justamente nas organizações que passaram pelo diagnóstico e pelo acompanhamento técnico. Em Nova Andradina e Costa Rica, duas participantes desde 2025, o trabalho do Sebrae/MS ajudou a organizar processos internos, fortalecer a relação com as prefeituras e criar condições para que associações e cooperativas avancem também na produção e na comercialização dos recicláveis.

Em Nova Andradina, a Associação Nova Limpa entrou no projeto com cinco associados e chegou ao fim de 2025 com 14. Atualmente, segundo o presidente Paulo Sérgio, são 16 pessoas trabalhando na organização. O crescimento do quadro social reduziu a dependência de trabalhadores eventuais e ampliou a capacidade da associação de manter a coleta, a separação e a comercialização dos materiais.
O avanço também ocorreu dentro da gestão. A participação no Pró-Catadores ajudou a associação a revisar e organizar documentos e, principalmente, abriu um canal mais próximo de diálogo com a administração municipal. Paulo Sérgio considera essa aproximação uma das principais mudanças desde a entrada no projeto, porque permitiu levar as necessidades dos catadores ao poder público com o Sebrae/MS participando dessa articulação.
A estruturação se soma a um processo de profissionalização que a Nova Limpa já vinha construindo. A associação foi criada em 2006 para reunir trabalhadores que atuavam no antigo lixão de Nova Andradina. Naquele período, os catadores recolhiam o material e faziam a separação no barracão, concentrando o trabalho principalmente em PET, outros tipos de plástico e papelão. Em 2019, a entidade avançou na regularização documental, o que abriu caminho para comercializar os materiais também com compradores de fora de Mato Grosso do Sul.
Com o Pró-Catadores, esse processo ganhou uma nova etapa. Segundo o balanço do Sebrae/MS, a Nova Limpa comercializou 53 toneladas de materiais recicláveis em 2025, resultado superior ao registrado no ano anterior. O fortalecimento do quadro de associados e a aproximação com o poder público passaram a fazer parte desse movimento de estruturação da entidade.
O próximo passo buscado pela Nova Limpa é transformar o serviço ambiental que já presta à cidade em uma fonte adicional e permanente de receita. Atualmente, os 16 associados dependem da comercialização dos recicláveis e, segundo Paulo Sérgio, recebem em torno de um salário mínimo cada. A associação busca agora uma remuneração do município pelo serviço prestado, seguindo um caminho que outras organizações atendidas pelo Pró-Catadores já conseguiram percorrer.
Em Costa Rica, a Coopercori mostra justamente como essa aproximação entre cooperativa, Sebrae/MS e poder público pode avançar. A organização participa do projeto desde 2025, quando o trabalho começou pela regularização documental e pela melhoria dos processos administrativos.

A cooperativa já havia passado por uma reorganização importante antes de ingressar no programa. Em março de 2021, a gestão liderada por Evandro Benites Ramires retomou o modelo cooperativista com 12 sócios. Cinco anos depois, o grupo chegou a 21 cooperados, sete deles presentes desde aquele recomeço.
Com a entrada no Pró-Catadores, o acompanhamento passou a envolver consultorias direcionadas às necessidades identificadas no diagnóstico. Segundo Evandro, houve avanços na organização administrativa, produção, comercialização, infraestrutura e relacionamento com parceiros. O trabalho também incluiu ações voltadas à comunicação e às redes sociais, além da participação em visitas técnicas e iniciativas promovidas pelo Sebrae/MS, como uma rodada de negócios realizada em Três Lagoas.
A relação com a prefeitura também mudou. O Sebrae/MS aproximou a Coopercori da Prefeitura de Costa Rica, por meio da área municipal de meio ambiente. A articulação contribuiu para a formalização do serviço de coleta seletiva e para o reajuste do convênio pago pelo município pelo trabalho realizado pela cooperativa.
Em 2025, a Coopercori comercializou 46 toneladas de materiais recicláveis, segundo o balanço do projeto. A experiência com o Pró-Catadores também ganhou continuidade. Após o primeiro período de acompanhamento, Evandro relata que a cooperativa firmou participação por mais dois anos.
Os dois casos estão em estágios diferentes, mas ajudam a mostrar o alcance da proposta. Em Nova Andradina, o fortalecimento do quadro de associados, a organização interna e a aproximação com a prefeitura criam condições para buscar a remuneração pelo serviço prestado. Em Costa Rica, essa articulação já avançou para a formalização da coleta seletiva e para a melhoria do convênio com o município.
É justamente essa evolução que o Sebrae/MS pretende multiplicar: organizações mais estruturadas por dentro, capazes de dialogar com o poder público, ampliar a produtividade, acessar mercados e transformar o trabalho ambiental realizado diariamente pelos catadores em melhores condições de geração de renda.
O serviço dos catadores entra na conta
A discussão sobre o papel dos catadores também chegou ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul e passou a ocupar espaço próprio dentro da política de resíduos sólidos acompanhada pela instituição. O MPMS atua de forma articulada nessa agenda desde 2013, quando iniciou, em parceria com o Tribunal de Contas, um trabalho voltado à gestão e à destinação adequada dos resíduos no Estado. Mais recentemente, com a redução dos lixões e o avanço da destinação final regular, a atuação passou a olhar também para outra parte da cadeia: as condições em que trabalham as pessoas responsáveis por recuperar os materiais que ainda podem voltar ao ciclo produtivo.

Esse movimento ganhou uma frente específica em 2024, com a criação do Projeto Valoriza pelo Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente, da Habitação e Urbanismo e do Patrimônio Histórico e Cultural (Caoma/MPMS). Inserido no programa “Resíduos Sólidos: Disposição Legal e Logística Reversa”, o projeto passou a trabalhar na melhoria das Unidades de Triagem de Resíduos Recicláveis (UTRs), na adequação das condições de trabalho e no fortalecimento técnico e institucional das cooperativas e associações de catadores.
O levantamento realizado a partir dessa realidade ajudou a colocar números e critérios em uma questão que aparece repetidamente na fala dos trabalhadores: vender papelão, plástico, vidro, metais e outros recicláveis não é suficiente, por si só, para sustentar toda a operação e assegurar uma remuneração adequada aos catadores.
Em 2025, esse trabalho resultou na publicação de uma Nota Técnico-Jurídica voltada aos municípios. O documento reúne fundamentos legais, critérios técnicos e uma metodologia para orientar a contratação e a remuneração de associações e cooperativas. O ponto de partida é uma mudança na forma de enxergar essas organizações: elas não são apenas compradoras e vendedoras de materiais recicláveis. Executam atividades que integram a própria gestão municipal de resíduos e produzem benefícios ambientais e sociais para toda a cidade.
A nota sustenta que a legislação brasileira prioriza a participação de associações e cooperativas de catadores na coleta seletiva e prevê mecanismos para sua contratação pelo poder público. O documento também aponta que, nas condições estabelecidas pela legislação, a contratação para coleta, processamento e comercialização de resíduos recicláveis pode ocorrer com dispensa de licitação.
O argumento considera os efeitos econômicos, ambientais e sociais do trabalho. Cada tonelada recuperada pelos catadores representa material que deixa de ser enterrado no aterro e pode retornar à cadeia produtiva. O próprio MPMS relaciona esse trabalho à redução da extração de recursos naturais, à diminuição das emissões de gases de efeito estufa, ao prolongamento da vida útil dos aterros e à educação ambiental. Do ponto de vista social, as organizações representam oportunidades de trabalho, renda e inclusão produtiva para uma população historicamente vulnerável.
Há também uma economia direta para os cofres públicos. Quando os catadores recuperam uma tonelada de recicláveis, o município deixa de arcar com parte dos gastos que teria para dar destinação final àquele material. Com base em indicadores do TCE-MS de 2023, a nota trabalha com custos entre R$ 115 e R$ 200 por tonelada para municípios que possuem aterro no próprio território. Quando é necessário fazer transbordo e transportar os resíduos para outra cidade, os valores apresentados variam de R$ 160 a R$ 990 por tonelada.
A lógica proposta pelo Projeto Valoriza é incorporar esses diferentes elementos ao cálculo. Em vez de definir o pagamento olhando apenas para o preço de venda do papelão, do plástico ou do alumínio, a metodologia procura saber quanto custa manter uma unidade de triagem funcionando e quanto é necessário para que o trabalho dos catadores seja adequadamente remunerado.
Na composição apresentada com valores de 2025, o Valor Social Base considera pelo menos um salário mínimo por catador e acrescenta componentes como décimo terceiro, férias, contribuição previdenciária e adicional de insalubridade. A referência chega a R$ 2.540,52 mensais por trabalhador. Isso não significa que esse valor seja simplesmente entregue a cada catador. Ele funciona como componente da precificação do serviço, ao lado dos custos necessários para manter a atividade.
Entram nessa conta despesas como água, energia elétrica, manutenção de equipamentos, materiais de trabalho e equipamentos de proteção. A metodologia também considera produtividade, quantidade de recicláveis efetivamente entregue pela coleta seletiva, receitas obtidas com a comercialização e a possibilidade de remuneração por atividades de educação ambiental.
A nota vai além da contratação municipal e aponta seis fontes possíveis de receita para as organizações: pagamento pelo serviço prestado ao poder público, venda dos recicláveis, créditos de logística reversa, prestação de serviços a grandes geradores, pagamento por serviços ambientais e créditos de carbono. A ideia é diminuir a dependência de uma única fonte e construir organizações financeiramente mais sustentáveis.
Nesse modelo, orientar moradores, participar de ações em escolas e ensinar a população a separar corretamente os resíduos também têm valor. Melhorar a separação dentro das casas significa fazer com que mais recicláveis cheguem às unidades de triagem em condições de aproveitamento, aumentando a produtividade dos catadores e reduzindo o rejeito que acaba seguindo para o aterro.

A metodologia também enfrenta um problema que não depende diretamente das cooperativas: se a coleta seletiva entrega pouco material, os catadores têm menos matéria-prima para separar e vender. Por isso, o modelo desenvolvido pelo MPMS prevê mecanismos para considerar o déficit da coleta seletiva e incentivos relacionados ao desempenho, vinculados a controles de pesagem e indicadores de produtividade.
Os parâmetros técnicos também passaram a ser discutidos com as prefeituras. Em janeiro de 2026, MPMS e Ministério Público do Trabalho reuniram as organizações de Campo Grande e representantes do município para apresentar os parâmetros financeiros do Projeto Valoriza e discutir a contratação pelo serviço prestado. Gilda Macedo participou dessa discussão representando a Atmaras/MS.
As negociações, porém, não resultaram em acordo. Em setembro, depois de meses de tratativas extrajudiciais, o MPMS e o MPT levaram a questão à Justiça. A Ação Civil Pública pede que Campo Grande implemente uma política permanente de contratação remunerada das organizações de catadores pelos serviços de triagem e destinação de recicláveis. O valor estimado na ação supera R$ 190 mil mensais. Caso a contratação não seja implementada de imediato, os órgãos pedem que o município apresente um plano com cronograma, metas, impacto orçamentário e fontes de custeio, além de indenização de R$ 1 milhão por danos coletivos e socioambientais.
A ação transforma em uma disputa jurídica uma reivindicação que, para Gilda, é muito concreta. Todos os dias, os catadores retiram materiais do fluxo que terminaria no aterro, separam o que pode ser reaproveitado e devolvem esses produtos à cadeia econômica. O que ela reivindica é que a remuneração não dependa apenas do preço obtido na venda desses materiais, mas reconheça também o serviço que os trabalhadores prestam à cidade.
“Tem que ser pago para podermos ter uma condição melhor de vida, porque nós tiramos toneladas de material do aterro. Esse material não vai para o lixo, vai para reciclagem, e isso ajuda o meio ambiente e a cidade”, resume Gilda.
Menos extração, energia e emissões
O trabalho dos catadores também participa de um esforço para reduzir o impacto da produção industrial. Quando materiais descartados retornam à indústria, podem substituir matérias-primas novas e diminuir a necessidade de extração e processamento.

Segundo estudo desenvolvido pela eureciclo em parceria com a Planton, com parâmetros ajustados à realidade brasileira, cada tonelada de material reciclado evita, em média, cerca de 2,06 toneladas de CO₂ equivalente, unidade usada para expressar o impacto climático de diferentes gases de efeito estufa. A média divulgada depende dos materiais e das condições considerados no estudo e não representa um cálculo das emissões evitadas especificamente em Mato Grosso do Sul.
Em seu balanço de 2025, a eureciclo informa que sua atuação evitou 881 mil toneladas de CO₂ por meio da reinserção de materiais no ciclo produtivo. No mesmo ano, a empresa registrou 483,5 mil toneladas de embalagens compensadas e R$ 30 milhões repassados à cadeia de reciclagem. São resultados nacionais divulgados pela certificadora sobre sua própria atuação.
Os ganhos variam conforme o material. No alumínio, a produção a partir da reciclagem consome cerca de 5% da energia necessária à produção primária, uma economia de aproximadamente 95%, segundo o Atlas da Eficiência Energética Brasil 2024, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
No vidro, o Guia Técnico de Reciclagem da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro) informa que um quilo de caco pode produzir um quilo de vidro novo. O reaproveitamento reduz a necessidade de extrair matérias-primas, o consumo de energia e as emissões de gases de efeito estufa na fabricação.
O vidro, porém, também mostra que o benefício ambiental da reciclagem, por maior que seja, não garante sozinho que o material volte para a indústria. Para que o caco substitua matéria-prima na fabricação de novas embalagens, alguém precisa coletar, separar, concentrar e transportar esse vidro até uma indústria capaz de reaproveitá-lo. E cada uma dessas etapas tem um custo.
O vidro mostra por que a conta precisa fechar
Em Mato Grosso do Sul, a distância dos grandes centros de processamento chegou a ser justamente um dos obstáculos para a reciclagem do vidro. lMarcos Matos, cofundador e CEO da eurecico, explica que as plantas industriais capazes de reaproveitar o material estão concentradas em poucos estados. Como as matérias-primas utilizadas na fabricação do vidro têm custo relativamente baixo, transportar o caco por longas distâncias podia tornar a operação economicamente inviável. Havia vidro disponível e tecnologia para reciclá-lo. O obstáculo era pagar o transporte entre o local do descarte e a indústria.

Foi nesse espaço que a eureciclo passou a atuar. A empresa trabalha com logística reversa de embalagens, conectando empresas que precisam compensar os materiais colocados no mercado a cooperativas, operadores e recicladores. O sistema utiliza créditos de reciclagem: cada tonelada coletada, triada e efetivamente encaminhada à reciclagem pode gerar um crédito correspondente ao tipo de material.
Na prática, uma empresa que colocou determinada quantidade de embalagens no mercado pode financiar a recuperação de quantidade equivalente daquele material. Os operadores são homologados e a cadeia é rastreada até a reciclagem. Os créditos são comercializados com as empresas e parte dos recursos é repassada às cooperativas e aos demais operadores responsáveis pela recuperação dos resíduos.
Em Mato Grosso do Sul, esse mecanismo ajudou a estruturar cadeias que enfrentavam dificuldades para se sustentar apenas com o valor obtido na comercialização dos materiais. Além do vidro, Marcos cita experiências com polipropileno, um tipo de plástico, e embalagens longa vida.
No caso do vidro, o recurso adicional ajudou a cobrir justamente a diferença que dificultava a operação. A eureciclo articulou cooperativas e operadores, organizou a concentração do material e ajudou a viabilizar o transporte para as indústrias recicladoras.
Uma dessas experiências ocorreu em Bonito. No município turístico, foi estruturado o chamado “Formigão do Vidro”, sistema em que um veículo percorre bares e restaurantes recolhendo garrafas e outras embalagens. O material é concentrado em um ponto e, quando ganha escala suficiente, segue para reciclagem. A solução desenvolvida com participação de uma cooperativa local posteriormente serviu de referência para experiências em outras regiões.
Segundo Marcos, somente no ano anterior à entrevista, a atuação da eureciclo contribuiu para a reciclagem de 1.365 toneladas de vidro em Mato Grosso do Sul. Pela relação apresentada pela Abividro, na qual um quilo de caco pode produzir um quilo de vidro novo, esse volume ajuda a dimensionar o potencial de reaproveitamento do material. A equivalência indica a capacidade técnica de substituição de matéria-prima e não significa que as 1.365 toneladas tenham necessariamente resultado na produção da mesma quantidade de novas embalagens.
O vidro expõe, assim, duas faces da mesma questão. De um lado, é um material que pode retornar ao processo produtivo e substituir matéria-prima, reduzindo impactos ambientais. Do outro, esse potencial somente se concretiza quando existe uma estrutura capaz de fazer o material percorrer todo o caminho entre o descarte e a indústria.
É por isso que, para Marcos, a sustentabilidade ambiental e social da reciclagem precisa caminhar junto com a sustentabilidade econômica. “A cadeia de reciclagem, para ela parar de pé, ela tem que ser economicamente viável. Senão, você sempre vai depender de doação”, afirma.
A lógica ajuda a entender também por que materiais diferentes apresentam realidades tão distintas dentro da reciclagem. O alumínio, por exemplo, tem alto valor de mercado e encontra compradores com maior facilidade. Já materiais de menor valor comercial podem exigir incentivos, ganho de escala ou novas soluções logísticas para que sua recuperação seja economicamente possível.
Em Mato Grosso do Sul, a atuação da eureciclo vai além do vidro. Segundo Marcos, a empresa trabalhou, no ano anterior à entrevista, com cerca de 16 mil toneladas de materiais no Estado, entre papel, plástico, vidro e outros recicláveis, por meio de uma rede que reunia aproximadamente 12 cooperativas e operadores. Os números podem variar à medida que novas organizações entram na rede.
Mas nem todo material recuperado em Mato Grosso do Sul precisa deixar o Estado para começar uma nova etapa do ciclo produtivo. Em Campo Grande, a Berpram é um exemplo de indústria que faz o beneficiamento de resíduos plásticos e os transforma novamente em matéria-prima para outras empresas.

A indústria trabalha com aparas de diferentes tipos de plástico, entre eles polietileno (PE), polietileno de alta densidade (PEAD) e polipropileno (PP), materiais encontrados em produtos como embalagens, garrafas, bombonas, baldes, bacias e utensílios domésticos.
Na unidade, esses resíduos passam por lavagem e trituração para a retirada de impurezas e contaminantes. Parte é transformada em flake, pequenos fragmentos de plástico beneficiado que podem retornar ao processo industrial. Outra parte passa também pela extrusão e é convertida em granulado de PE e PEAD, matéria-prima utilizada por indústrias de diferentes segmentos do ramo plástico, inclusive na produção de filmes plásticos e produtos de PEAD.
O plástico que entra na empresa como sucata pode sair como matéria-prima para outras fábricas. O material processado pela Berpram é encaminhado a outras indústrias para fabricação de novos produtos, completando uma etapa da logística reversa. É a mesma lógica aplicada aos demais recicláveis: o papelão separado pode retornar à indústria e voltar como caixa; o vidro segue para fabricantes que o utilizam na produção de novas garrafas; e o plástico beneficiado volta à cadeia como matéria-prima para novos produtos.
A experiência da Berpram mostra uma possibilidade importante para Mato Grosso do Sul. Quando existe capacidade de beneficiamento no próprio Estado, parte da transformação pode ocorrer mais perto do local onde o resíduo é gerado. Em vez de simplesmente separar e despachar o material bruto para centros industriais distantes, o processamento local permite agregar valor ao reciclável antes que ele siga para outras indústrias.

A expansão desse mercado, porém, depende da mesma equação que aparece em diferentes pontos da cadeia. Cooperativas precisam conseguir pagar trabalhadores e manter suas estruturas; operadores precisam cobrir custos de processamento e transporte; recicladores precisam ter matéria-prima em quantidade e qualidade suficientes; e a indústria precisa encontrar condições para incorporar o material recuperado aos seus produtos.
Quando essa equação funciona, o benefício vai além da venda do reciclável. Menos matéria-prima precisa ser extraída, menos resíduos seguem para os aterros e materiais que já consumiram recursos naturais e energia para serem produzidos permanecem circulando na economia por mais tempo.
Para Marcos, deixar o componente econômico fora dessa discussão significa colocar em risco a própria continuidade da reciclagem. Quanto maior a produtividade e mais organizada a cadeia, maior a possibilidade de gerar receita suficiente para novos investimentos, contratação de trabalhadores e ampliação da recuperação dos materiais.
Essa lógica se encontra diretamente com a realidade dos catadores apresentada ao longo desta reportagem. Se a reciclagem reduz impactos ambientais, prolonga a vida útil dos aterros e devolve materiais à atividade econômica, manter essa engrenagem funcionando depende também de remunerar adequadamente quem coleta, separa e prepara os resíduos para que possam retornar ao ciclo produtivo.
É essa sustentabilidade que Gilda reivindica para os trabalhadores de Campo Grande. Para ela, reconhecer o valor ambiental da reciclagem passa necessariamente por reconhecer o trabalho de quem a torna possível: “Tem que ser pago para podermos ter uma condição melhor de vida”.

