02/02/2026 15:56

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Dia Mundial das Áreas Úmidas: proteger a água é proteger culturas, saberes e futuros

Por Rafaela Nicola 

No dia 2 de fevereiro, o mundo celebra o Dia Mundial das Áreas Úmidas, uma data que vai além da preservação de ecossistemas alagados e convida à reflexão sobre a relação entre água, natureza e sociedade. Em 2026, o tema definido pela Convenção de Ramsar — “Áreas úmidas e conhecimento tradicional: celebrando o patrimônio cultural” — reforça uma verdade conhecida há gerações por comunidades tradicionais: cuidar das águas e das paisagens formadas pela natureza é também cuidar da vida, da cultura e da história dos territórios. 

As áreas úmidas estão entre os ecossistemas mais produtivos do planeta. Elas regulam o clima, contribuem para o armazenamento de carbono, garantem segurança hídrica, sustentam a biodiversidade e mantêm modos de vida inteiros. No entanto, sua conservação só se torna efetiva quando reconhecemos e fazemos uso das diferentes formas de interagir e aprender sobre esses ecossistemas. 

De forma didática, é possível identificar três tipos de saberes que caminham juntos. O conhecimento empírico nasce da observação cotidiana, da prática e da experiência direta com o ambiente. O conhecimento tradicional é coletivo, transmitido entre gerações, profundamente conectado à cultura, à espiritualidade e ao território. Já o conhecimento técnico-científico se estrutura a partir de métodos sistematizados, pesquisas e dados. Nenhum desses saberes é superior ao outro. É justamente no diálogo entre eles que surgem soluções mais justas, duradouras e eficazes para os desafios ambientais e climáticos. 

 Rafaela Nicola (Arquivo Pessoal)

Essa compreensão orienta a trajetória da Mupan – Mulheres em Ação no Pantanal, organização construída por mulheres e com forte atuação comunitária no coração do território pantaneiro. Desde sua origem, a Mupan reconhece e valoriza os saberes tradicionais e empíricos como pilares da conservação. O protagonismo das mulheres, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais sempre esteve no centro das discussões sobre território, água, conservação da natureza e modos de vida, sustentando o cuidado, a transmissão de conhecimentos e a resistência cultural. 

A Wetlands International Brasil compartilha dessa visão ao atuar em áreas úmidas muitas vezes pouco visibilizadas pelas políticas públicas. Seu trabalho fortalece pontes entre comunidades, ciência, governos e tomadores de decisão, ampliando espaços de construção conjunta e contribuindo para políticas públicas mais eficazes, inclusivas e conectadas às realidades territoriais. 

No contexto do trabalho conjunto desenvolvido pelas duas instituições, se valoriza a relação inseparável entre esses conhecimentos como caminhos para encontrar soluções duradouras, socialmente justas, inclusivas e que promovam a manutenção de ecossistemas saudáveis e resilientes.  Essa forma de trabalho se traduz em ações práticas, tais como a colaboração com   comunidades tradicionais para territórios resilientes, como a desenvolvida junto ao povo Kadiwéu. Também merece destaque a atuação no âmbito dos TICCA — Territórios e Áreas Conservadas por Comunidades Indígenas e Locais.

A Mupan/Wetlands International Brasil atuam como organização ponto focal do Consórcio TICCA no Brasil desde 2015, promovendo o reconhecimento, a documentação e o apoio ao registro internacional desses territórios, que constituem exemplos concretos de conservação liderada por comunidades. 

Portanto, celebrar o Dia Mundial das Áreas Úmidas é reafirmar um compromisso praticado diariamente. Proteger esses ecossistemas é também proteger culturas, histórias e modos de vida, reconhecendo que soluções duradouras nascem do diálogo entre conhecimentos tradicionais, empíricos e técnico-científicos. 

Entre os resultados que marcam essa trajetória, destaca-se o Programa Corredor Azul,desenvolvido juntamente com a Wetlands International Argentina LAC,  iniciado em 2017, que conecta pessoas, natureza e economias ao longo do Sistema Paraguai- Paraná de Áreas Úmidas. Nesse território, cerca de 4.532 pessoas já participaram de plataformas de diálogo, capacitações e ações de fortalecimento comunitário, desenvolvidas em conjunto com comunidades locais. 

Até dezembro de 2025, o Programa contabilizou 135.550 hectares de áreas produtivas com aplicação de melhores práticas de manejo. E, no Pantanal, mais de 2.000 espécies de flora e 1.200 espécies de fauna foram registradas, evidenciando a relevância ecológica de um dos últimos corredores fluviais de fluxo livre do mundo. 

Esses resultados refletem um trabalho que fortalece comunidades, promove práticas produtivas sustentáveis, apoia a gestão de áreas protegidas e impulsiona soluções inovadoras para a conservação e o desenvolvimento sustentável. Garantir a saúde e a conectividade desse sistema de áreas úmidas é essencial para enfrentar a crise climática, conservar a biodiversidade e assegurar a resiliência das comunidades que dele dependem.  

Só construiremos futuros possíveis quando diferentes saberes caminharem juntos, com respeito, escuta ativa e corresponsabilidade. 

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