Pesquisa aponta procura por pratos menores e queda no consumo de sobremesas; semaglutida liderou crescimento.
Dad Redação

A venda de medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, princípios ativos das chamadas canetas emagrecedoras, cresceu 23,2% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O avanço já provoca mudanças nos cardápios e no comportamento dos clientes de bares e restaurantes.
O maior crescimento foi registrado entre os medicamentos com semaglutida comercializados em caixas: 58,8%. Somente em junho, foram contabilizados 368.741 registros de venda dos dois princípios ativos.
Os números foram informados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), obtidos pela agência de dados Fiquem Sabendo e analisados pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Os registros indicam a comercialização dos medicamentos, mas não correspondem necessariamente ao número de usuários.
Semaglutida lidera crescimento
A alta ganhou força no segundo trimestre, período que coincidiu com o fim da proteção patentária da semaglutida no Brasil, em 20 de março. A decisão abre caminho para o desenvolvimento de medicamentos concorrentes, mas não significa redução imediata dos preços.
Antes de chegar às farmácias, qualquer novo produto precisa passar pela avaliação e obter registro da Anvisa. A expiração mencionada refere-se à semaglutida e não deve ser estendida automaticamente à tirzepatida. O Superior Tribunal de Justiça rejeitou a tentativa de prorrogação das patentes relacionadas ao Ozempic e ao Rybelsus.
O avanço desses medicamentos, que reduzem o apetite e retardam o esvaziamento do estômago, começa a produzir efeitos fora do mercado farmacêutico.
Levantamento da Abrasel mostra que 61% dos empresários de bares e restaurantes perceberam mudanças associadas ao uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro. Entre eles, 64% identificaram maior procura por porções menores ou compartilhadas, enquanto 65% observaram redução no consumo de sobremesas.
Pratos menores ganham espaço
No restaurante Babilônia, no bairro Batel, em Curitiba, a mudança apareceu na redução da quantidade consumida e no aumento dos pedidos para dividir pratos.
“É visível a diminuição da ingestão de alimentos, a busca por porções menores e o pedido para compartilhar pratos”, afirma o sócio-proprietário Marcelo Woellner Pereira.
A empresa comparou os dados internos de vendas para identificar quais pratos estavam perdendo demanda. A análise levou à criação da seção “Mais Leves”, com versões reduzidas dos clássicos da casa e preços adaptados. O restaurante também reformulou as opções destinadas ao compartilhamento.
Marcelo avalia que a concorrência gerada pelo fim da patente da semaglutida poderá ampliar o acesso aos medicamentos. Essa redução de preços, entretanto, dependerá da aprovação e da chegada de novos produtos ao mercado.
Em Belo Horizonte, o sócio do bar Quinteiro, André Calixto, percebeu a dificuldade antes mesmo de identificá-la entre os clientes. Usuário do medicamento, ele conta que as porções disponíveis no próprio estabelecimento se tornaram grandes demais.
“Quando comecei a usar a caneta, entendi na prática: eu não conseguia consumir no meu próprio bar, porque as porções eram muito grandes”, relata.
Cardápio muda sem perder identidade
Após analisar o comportamento do público, o Quinteiro acrescentou sanduíches preparados com carnes magras, ampliou a oferta de bebidas sem álcool e começou a estudar petiscos menores.
“A ideia não é virar um boteco fitness, mas agregar ao cardápio opções mais leves focadas nesse público”, explica André.
Segundo o empresário, a redução na quantidade consumida não provocou queda perceptível no gasto médio por cliente. O consumidor estaria disposto a pagar por opções menores, desde que a qualidade e a experiência fossem preservadas.
Para o presidente executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, a possível ampliação do acesso aos medicamentos exigirá novas estratégias do setor. Enquanto o uso esteve mais concentrado nas classes de maior renda, os estabelecimentos puderam compensar a redução das porções com produtos e experiências de maior valor agregado.
Com a entrada de concorrentes e uma eventual redução de preços, esse comportamento poderá alcançar públicos com perfis diferentes de renda e consumo. Nesse cenário, porções menores, pratos compartilhados e alternativas sem álcool tendem a deixar de ser nicho e ganhar espaço permanente nos cardápios.





