
Existe uma pergunta que poucas organizações fazem a si mesmas.
Nossos mecanismos de controle continuam preparados para os riscos de hoje?
A maioria das empresas revisa máquinas, troca sistemas, atualiza equipamentos e investe na capacitação das equipes. Tudo isso faz parte da rotina de quem deseja permanecer competitivo. Mas existe um patrimônio quase sempre esquecido nesse processo de atualização: os próprios controles internos.
Eles também envelhecem.
Não porque deixam de existir. Pelo contrário. Continuam sendo executados, geram relatórios, alimentam indicadores e seguem previstos nos manuais da empresa. O problema é mais silencioso. Muitos foram criados para responder aos riscos de uma realidade que simplesmente não existe mais.
É justamente aí que mora uma das ilusões mais perigosas da gestão: a de acreditar que, porque um processo sempre funcionou, continuará funcionando da mesma maneira diante de novos desafios.
Nos últimos dias, as declarações do presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), de que decisões da agência foram tomadas com base em documentos falsos apresentados pela Voepass, trouxeram esse debate para o centro das atenções. Independentemente das responsabilidades que ainda continuam sendo analisadas, o episódio levanta uma pergunta que interessa muito além da aviação:
Os mecanismos de controle estavam preparados para identificar esse tipo de fraude?
Essa pergunta vale para qualquer organização.
Há alguns anos, um supermercado precisava controlar estoque, caixa e fornecedores. Hoje, além disso, administra vendas por aplicativo, meios de pagamento digitais, integração logística e segurança de dados. Seus controles acompanharam essa transformação?
Uma escola não precisa mais olhar apenas para a segurança física dos estudantes. Boa parte dos conflitos nasce nas redes sociais, em grupos de mensagens e na circulação instantânea de informações. Os protocolos evoluíram na mesma velocidade?
Instituições religiosas enfrentam um cenário semelhante. A velocidade com que uma decisão, uma denúncia ou um vídeo se espalham exige modelos de governança muito diferentes daqueles desenhados para um ambiente analógico.
Na indústria, sensores, automação e inteligência artificial passaram a monitorar processos em tempo real. Ainda assim, não é raro encontrar auditorias estruturadas para uma operação que existia dez anos atrás.
Perceba que o problema não está na ausência de controles.
Está na falsa sensação de que eles continuam suficientes.
Talvez seja por isso que tantas crises surpreendam organizações experientes. Elas não acontecem porque ninguém criou mecanismos de fiscalização. Acontecem porque quase ninguém revisa se esses mecanismos continuam capazes de enxergar os riscos atuais.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) trata a confiança nas instituições como um elemento essencial para o desenvolvimento econômico. Essa confiança, porém, não nasce da existência de regras. Ela depende da capacidade de essas regras acompanharem a evolução da sociedade, dos mercados e da tecnologia. Quando os mecanismos de supervisão deixam de evoluir, a confiança começa a se desgastar antes mesmo que alguém perceba.
Talvez essa seja uma das responsabilidades menos discutidas da liderança.
Não basta revisar metas, produtos ou estratégias.
Também é preciso revisar os próprios mecanismos de controle.
Porque os riscos mudam.
As pessoas mudam.
A tecnologia muda.
Os negócios mudam.
E controles que deixam de evoluir produzem uma das ilusões mais perigosas da gestão: a sensação de que alguém continua olhando, quando, na verdade, o sistema já não consegue mais enxergar aquilo que realmente importa.

Jefferson Braun é jornalista, com mais de seis anos de atuação em comunicação estratégica, imagem institucional, reputação e prevenção de crises. Possui MBA em Jornalismo Empresarial e MBA em Prevenção e Gerenciamento de Crise. Ao longo da carreira, atuou na gestão de comunicação de organizações e projetos ligados ao setor institucional e produtivo, acompanhando de perto decisões, posicionamentos e seus impactos públicos. Nesta coluna, propõe reflexões sobre risco, imagem e comunicação a partir da leitura de cenários reais do cotidiano empresarial.
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