21/01/2026 00:30

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Janeiro Branco: equilíbrio entre saúde mental e vida é desafio central da contemporaneidade

Como encontrar equilíbrio em um mundo de demandas infinitas, conexões virtuais e cobranças simultâneas? Essa questão, central para a saúde mental contemporânea, norteou a palestra do professor e psicanalista Tiago Ravanello, realizada esta semana em uma escola de Campo Grande.

A iniciativa estratégica, que antecedeu o retorno dos alunos às aulas e se alinhou à campanha Janeiro Branco, foi dirigida à equipe pedagógica e propôs uma reflexão sobre a busca por um equilíbrio viável frente às exigências da vida moderna, transcendendo o âmbito escolar.

Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e com pós-doutorado em Psicologia Clínica pela USP, Ravanello enfatizou a urgência de revisar prioridades, reconstruir redes de apoio e fortalecer o cuidado com a saúde mental no cotidiano.

Diante de um cenário marcado pela hiperconexão digital e uma pressão constante por desempenho, o especialista, que também é mestre e doutor em Teoria Psicanalítica pela UFRJ, partiu de um questionamento crucial: é possível falar em equilíbrio em uma sociedade que opera no modo “sempre ligado”?

Em sua análise, ele destacou o paradoxo atual: “Nunca tivemos tanto acesso a informações, tecnologias de bem-estar e discursos de autocuidado. No entanto, paradoxalmente, vivemos uma epidemia de esgotamento e ansiedade. O que temos em abundância de recursos, falta dramaticamente no campo do vínculo humano concreto e da comunidade”.

Hiperindividualização e o esgarçamento das redes

Ravanello dedicou parte de sua exposição ao fenômeno da hiperindividualização. Segundo ele, as estruturas de apoio que antes sustentavam a vida cotidiana — como a família ampliada, os laços comunitários e a vizinhança — estão cada vez mais fragilizadas.

“Vivemos imersos em redes digitais e sistemas de inteligência artificial, que ampliam conexões, mas não garantem vínculos reais. Abrimos inúmeras janelas para o mundo virtual e, progressivamente, fechamos as portas do contato genuíno com quem está ao nosso lado. O resultado é um indivíduo exausto, tentando dar conta de tudo sozinho, sem uma rede segura para ampará-lo quando algo falha”, explicou.

Caminhos possíveis: reduzir o mundo para voltar a habitar a vida

Como contraponto à lógica esmagadora do “tudo, agora e perfeito”, o psicanalista propôs uma redução simbólica do mundo. Isso envolve revisar os próprios conceitos de sucesso e vida plena. “Precisamos reconhecer que não é possível dar conta de tudo, o tempo todo. Definir prioridades autênticas, alinhadas aos nossos desejos de vida e não apenas a expectativas externas, é um passo fundamental.”, afirmou.

Ravanello também ressaltou a importância de voltar a sonhar: “A vida não segue um roteiro predeterminado. Reduzir a existência à mera execução de demandas esvazia seu sentido. Sonhar é poder se perguntar que futuro desejamos, que vínculos queremos cultivar. Quando retomamos a capacidade de desejar, deixamos de apenas reagir ao presente e abrimos espaço para novos caminhos”, concluiu.

A escola como âncora: reconstruindo espaços de vínculo

O palestrante destacou o papel transformador das instituições de ensino. “A escola não é apenas um local de transmissão de conteúdo. Deve aspirar a ser um microcosmo da sociedade, onde crianças e jovens aprendem, na prática, o que é convivência, respeito e cooperação. Se desejamos uma sociedade mais saudável, precisamos começar construindo escolas que sejam espaços de acolhimento”, defendeu.

A escolha do período pré-retorno das aulas foi um gesto estratégico. “Nós acreditamos que não existe equilibrio profissional sem o pessoal, eles caminham juntos, por isso é muito importante olhar para o bem-estar mental da equipe que receberá os alunos, esse é o primeiro passo para criar um ambiente verdadeiramente saudável”, complementou Juliana Souza, coordenadora de RH da escola.

Um desafio coletivo: para além dos muros da escola

O cuidado com a saúde mental e a reconstrução dos vínculos não são responsabilidades exclusivas da escola. Trata-se de um desafio coletivo que envolve famílias, instituições e a sociedade como um todo. “O equilíbrio emocional não é apenas uma tarefa individual, mas algo que se constrói nas relações, nos espaços compartilhados e nas redes de apoio que mantemos vivas”, afirmou Ravanello.

A palestra serviu como exemplo de como as instituições podem ser pontos de partida para um movimento social mais amplo em direção a uma cultura coletiva de cuidado..

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