Episódio 3 – Montanhas, desmoronamento,“umbigo do mundo”, alpacas, xamã, Machu Picchu e
uma cabeça decepada.
Ariosto Mesquita (ariostomesquita@gmail.com)
Nesta etapa da viagem abandonamos os longos e áridos trechos de desertos andinos para atravessar a cordilheira até Cusco, cuja região – apesar de sua altitude de 3.400 metros – é úmida, verdejante e mais habitada. Apesar de a Amazônia peruana ainda estar bem distante (Puerto Maldonado, considerada a porta de entrada para o bioma no país andino, está a 480 km de Cusco), percebe-se nitidamente o ambiente de transição. Chegávamos à metade da nossa Expedição Inca. Veja todos os detalhes no vídeo acima.

Mas seguir pela rodovia entre Nazca e Cusco é tarefa desafiadora. São aproximadamente 670 km de um percurso surreal, com subidas e descidas, íngremes, margeando precipícios e gigantescos paredões em uma rodovia estreita e movimentada. Em vários levantamentos está facilmente entre as 10 estradas mais perigosas do mundo. A Expedição Inca percorreu grande parte dela na noite entre 3 e 4 de janeiro. Portanto, quase todo o grupo fez o trecho “protegido” pelo sono.

Porém, às 2h40min da madrugada do dia 04 de janeiro, a “nave-mãe” parou. Um forte desmoronamento de terra e pedras na altura de Sanayca, interrompeu o trafego nos dois sentidos. A liberação da estrada só ocorreu quatro horas depois. Felizmente seguimos viagem sem grandes problemas.
Era um domingo e paramos para almoçar em Mollepata, pequena cidade na província de Anta, a 2.800 metros de altitude, próximo à montanha Humantay, cujo pico fica a 5.473 metros acima do nível do mar. Pedimos um ceviche, um chincharron de trucha (prato tradicional andino com filé de truta frito acompanhado de mandioca, batatas, milho frito e salsa – cebola, pimenta, coentro e limão), duas cervejas (lata) e uma Inka Cola, clássico refrigerante do Peru, com forte cor amarela (lembra muito o detergente Ipê) extremamente doce e frutado. A conta final, para duas pessoas, totalizou 73 soles (R$ 114,00 pagando com cartão internacional de débito). Mais adiante abordaremos mais a questão da moeda.

Ainda na estrada, começamos a nos preparar para enfrentar a altitude, tomando doses generosas de chá de folha de coca preparadas no próprio ônibus. Mas caso o viajante não tenha acesso à bebida durante seu deslocamento, não precisa se preocupar. Tanto no Chile quanto no Peru os hotéis, em geral, fornecem infusões de folhas de coca e de muña em seus cafés da manhã ou mesmo no saguão próximo à recepção.
Chegamos a Cusco – que foi a capital do Império Inca – no final da tarde de domingo e a cidade (3.400 metros de altitude) já vivia o clima dos festejos do “Dia de Reis”, programação que combina tradições cristãs e costumes religiosos do povo Inca. Ficamos hospedados no Casa Andina Plaza Hotel, bem no centro, próximo da icônica Praça de Armas. O sincretismo religioso é uma das marcas da cidade “umbigo do mundo” (tradução para a palavra, Qosqo, na língua quéchua). É possível perceber claramente uma convivência entre a resistência das crenças andinas pré-coloniais e a prática do catolicismo imposto pelos espanhóis.
Vale Sagrado dos Incas

Evidente que, por ser uma das sete maravilhas do mundo moderno, Machu Picchu é a maior e mais badalada atração de Cusco e também do Peru, mas está longe de ser a única. A região abriga um verdadeiro complexo arqueológico e cultural da cultura Inca, preservando boa parte da história e do legado daquele que foi o maior Império pré-colombiano de todas as Américas, com mais de 3 mil km de extensão em terras hoje ocupadas pelo Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Chile e Argentina.

O dia 5 de janeiro foi reservado para uma visita ao Vale Sagrado dos Incas, região no Vale do Rio Urubamba, obrigatória para entender a conexão entre a resiliência agrícola, arquitetura e a religiosidade andina. Em Pisac (35 km de Cusco), subimos montanhas até o parque arqueológico, que abriga um centro cerimonial, um cemitério, área habitacional, terraços para cultivos e armazéns. No percurso, é fácil topar com alpacas e lhamas em pastejo, animais domesticados e acostumados com a presença humana, ao contrário das vicunhas e guanacos, de vida selvagem, no altiplano andino, protegidos por lei.
Ao pé das montanhas fica o vilarejo de Pisac, quase todo uma irresistível feira, talvez a mais esperada na Expedição para a compra de produtos e roupas típicas (e legítimas) andinas. Na praça e nas vielas é possível encontrar diversas lojinhas e barracas com uma grande variedade de chapéus, ponchos, tapeçarias, presentes, instrumentos musicais, bonés e réplica de objetos da cultura Inca. Uma dica: pechinche, pois o primeiro preço geralmente é fora da caixinha.

O mercado/feira de Pisac nasceu como um espaço de troca entre os nativos. Ao longo dos séculos, evoluiu para um movimentado centro de arte, comércio, cultura e gastronomia. É quase impossível resistir às empanadas assadas na brasa e ao choclo, um milho “gigante” com grandes grãos brancos cozido in natura.

E foi por lá que, a convite do nosso guia/líder, Jonas Medeiros, participamos de uma cerimônia religiosa com “Oscar”, um xamã andino peruano que atua no Vale Sagrado. O ritual é uma espécie de limpeza espiritual que ele conduz gratuitamente. Ao final, o interessado pode adquirir peças do artesanato Inca, cada uma com histórias e finalidades de cura/medicinais distintas, conforme orientação do próprio xamã.

Na parte da tarde, fomos à impressionante Ollantaytambo (70 km de Cusco), uma pequena cidade do Império, da era pré colonial, ainda habitada e que guarda uma monumental obra arquitetônica: as escadarias entre degraus gigantes, uma verdadeira fortaleza com aproximadamente 250 degraus que protege e leva até o Templo do Sol, em sua parte mais alta, construído com enormes rochas monolíticas de granito.

Um formigueiro humano desce e sobe as escadas. Parece mais um local de peregrinação religiosa. Realmente é, mas dentro de um sentido místico, sem esquecer claros apelos histórico, arquitetônico, cultural e arqueológico.
De Ollantaytambo pegamos o trem, das 16h04 min, para Águas Calientes, cidadela também conhecida como “Machu Picchu Pueblo”, porta de entrada para a mais badalada visita da Expedição Inca. O percurso de aproximadamente 40 km é feito em até 1h45minutos de descida margeando o Rio Urubamba, saindo de uma altitude aproximada de 2.800 para 2.100 metros.
Por um equívoco de embarque, nosso grupo caiu em um vagão plus, com serviço de bordo mais completo. Ninguém reclamou, obviamente. Chegamos à espremida (entre montanhas) Águas Calientes no início da noite. Da estação, cada um abraçou sua bagagem e carregou por vielas até o Hotel Mamasara para algumas horas de descanso antes de “conquistar” Machu Picchu.
Susto e alegria

No Dia de Reis, 6 de janeiro, embarcamos às 7 horas em um micro-ônibus para encarar 10 km de uma estreita estradinha morro acima até a porta de entrada do mais famoso sítio Inca. Lá chegando, veio a notícia: perdemos o horário previamente reservado para o grupo. Um guia da agência local (prestadora de serviço para a Nova Palmira), responsável pelo agendamento e deslocamento da turma, se confundiu. Já eram 8 horas e tínhamos de ter entrado às 7. O perrengue restava desenhado, pois o receio era grande. Estávamos na porta de acesso para a “cidade perdida dos Incas”, patrimônio da humanidade pela Unesco e não tínhamos mais certeza se visitaríamos.

Mas tudo não passou de um susto. Às 10h35, depois de um reconhecido esforço da agência local, envolvendo até mesmo uma negociação com o Ministério da Cultura do Peru, nosso acesso foi liberado. Alívio geral! Passaríamos praticamente todo o horário de almoço lá dentro. Na verdade, creio que ninguém se lembrou disso. O importante era explorar este “santuário”, como os peruanos consideram.

Ao final, tudo colaborou: com o atraso, percorremos Machu Picchu em um horário em que os contantes nevoeiros não mais impediam avistar os topos das montanhas. O visual, estonteante. A emoção, geral. Ver fotos e assistir vídeos dessa cidade que ficou perdida por centenas de anos, só descoberta há pouco mais de um século (em 1911, por Hiram Bingham), são alternativas minúsculas perto da experiência presencial.

Para a visita, percorremos o Circuito 3, com até três horas de duração, subindo e descendo escadarias, mas priorizando conhecer estruturas mais planas, como a zona agrícola, os templos da realeza, o templo do sol e a Casa do Inca. Essa última, uma imersão no recinto que, segundo estudiosos, foi de uso residencial temporário do imperador (uma vez que a capital era Cusco).

A construção, que reúne as paredes mais finas do sítio arqueológico, erguida bem no centro da área urbana da cidadela (que pode ter abrigado até 1.000 habitantes permanentes em seu apogeu), a 2.800 metros de altitude, era considerada bem confortável para a época. Hoje ainda é possível ver uma sala central ladeada por dois grandes quartos (um deles, suíte), janelas, portas de acesso e água encanada. Tudo finamente talhado em pedra.
Tudo indica que a vida, em Machu Picchu, foi curta. A cidadela teria sido erguida no século XV – possivelmente pelo imperador Pachacuti – e abandonada no século XVI, período que coincide com o avanço espanhol. Apesar disso, os colonizadores europeus desconheciam o local, cuja existência só se tornou de conhecimento mundial em 1911. Há argumentos de que cumpriu funções religiosas, administrativas e residenciais. Porém, muito do propósito de sua construção e a razão de seu precoce abandono ainda são incógnitas. Por isso mesmo, visitar Machu Picchu é caminhar sobre histórias ainda não contadas. Impossível não se emocionar.

Cusco 48 horas
Os dois dias seguintes foram reservados para que boa parte da Expedição explorasse Cusco (alguns encararam visitas opcionais, como “Laguna Humantay” e “Montanhas do Arco-Íris”). Na manhã de 7 de janeiro, a pedida foi conhecer o Mercado San Pedro, no centro da cidade. Coincidência ou não, era exatamente o dia reservado para que oficialmente se comemorasse seu centenário (foi inaugurado em 1925) com o lançamento oficial do livro “Mercado San Pedro de Cusco – 100 anos”. E como bom mercado, ele é um aglutinador da cultura, costumes e gastronomia local através de suas 1.180 lojas/boxes que comercializam roupas, ervas, artesanato, pratos típicos, lanches e produtos agrícolas, como uma extensa e colorida variedade de milho.

No entanto, a experiência visual dos serviços de alimentação não é atraente. Caldos aguados, alimentos sem acondicionamento/proteção além de uma alta concentração de famintos consumidores em bancos e mesas corridas, não estimulou nosso apetite. A “Alpaca a lo pobre” (filé de alpaca com arroz, abacate, banana, ovo e legumes – prato a R$ 70 no mercado), deixamos para experimentar no jantar (nada espetacular; aliás, longe disso).

Reservamos a parte da tarde para começar a usar o Bilhete Turístico de Cusco (BTC) distribuídos aos expedicionários pela organização da Expedição Inca. Como ele, o visitante tem acesso livre a vários pontos da cidade, como museus, parques arqueológicos e casa de shows. Com tempo curto, escolhemos dois.
O primeiro, o Museu Histórico Regional de Cusco, onde é possível conviver com séculos de história da região. Fósseis de mamute, recorte de pinturas rupestres, peças da cultura Wari (anterior aos Incas), imagens de santos cusquenhos e utensílios da vida colonial recheiam os cômodos da casa que teria sido a residência do Inca Garcilaso de la Veja, considerado o primeiro cronista mestiço do Peru.
Uma sala inteira é dedicada à história de Tupac Amaru II. Vale a pena se deter um pouco mais neste relato. Ele foi um líder mestiço do Peru que comandou uma insurreição contra o domínio espanhol em 1780 declarando-se herdeiro do líder inca Tupac Amaru que esteve à frente de uma resistência à conquista espanhola no século XVI. Eventuais semelhanças com a Inconfidência Mineira, no Brasil, não são coincidência. Os dois movimentos foram claramente alimentados pelos ventos de liberdade e justiça que sopravam na Europa.
Assim como alguns inconfidentes, dentre eles Tiradentes (enforcado e esquartejado), Tupac Amaru II teve morte trágica, em plena Praça das Armas, em Cusco. Contam os relatos (ilustrado por pinturas populares) que suas mãos e seus pés foram amarrados e presos a quatro cavalos para que fossem arrancados pela força dos animais. Não surtindo o efeito esperado, sua cabeça foi decepada e o corpo esquartejado.

Também visitamos o Museu de Arte Contemporânea de Cusco, instalado no majestoso prédio Municipalidad Provincial del Cusco (sede do governo municipal). São mais de 280 obras de artistas regionais, nacionais e estrangeiros e funciona como sede de mostras internacionais de artes.

No quarto e último dia da Expedição Inca na região de Cusco, o grupo conheceu sítios próximos da cidade, boa parte concentrada no Parque Arqueológico de Sacsayhuaman. No trajeto, topamos com uma incrível fortaleza de pedras esculpidas, algumas pesando mais de 100 toneladas. Percorrendo uma pequena trilha se chega a um ponto mais alto de onde se tem uma bela visão panorâmica da cidade. Ao final da tarde, retorno ao hotel, organização das malas e retorno à “nave-mãe” para uma viagem noturna de 400 km até Puno, na fronteira do Peru com a Bolívia. Mas isso já é assunto para nosso quarto e último episódio.

Cartão ou dinheiro?
É fácil perceber e compreender que não há uma regra absoluta quanto a usar dinheiro vivo ou cartão de crédito ou débito em uma viagem como essa. Vai do gosto e da comodidade do freguês, além da disponibilidade de aceitação de diversas formas de pagamento nos estabelecimentos. O que tem de se observar é a forte variação de cotação na aquisição de moeda em casas de câmbio/cambista e o risco de recebimento de notas falsas.

Confesso que tinha dúvidas sobre o uso de cartões de débito internacionais em viagem pela América do Sul, mas ao longo da Expedição Inca, isso acabou. Pelo menos no nosso caso, o cartão foi bem mais vantajoso do que fazer câmbio e pagar com a moeda nativa. Exemplo foi um dos almoços no Peru. A conta foi de 47 soles. Pelo câmbio obtido pela expedição (geralmente com vantagens sobre casas de câmbio) pagaríamos o equivalente a algo na casa de R$ 90. Usando o cartão Wise, pagando em dólar (o novo soles ainda não está na lista do cartão) e já descontando todas as taxas, a conta ficou em US$ 14,26. Considerando a cotação de 4 de janeiro – 1 dólar equivalente a R$ 5,423 na conversão da Wise – acabei desembolsando R$ 77,33. Economia de R$ 12,67.

Mas, atenção: tem de fazer conta. Alguns lugares não aceitam cartão de débito. Além disso, com o dinheiro do país no bolso, você pode conseguir descontos significativos em compras nos mercados, feiras e lojinhas de lembranças. Portanto, use sempre a calculadora do seu smartphone.






